Meu bisavô. Até onde sei, era homem triste e calado, de coração amargurado e fechado.
Homem de família, honrado e fiel, porém escurecido pela eternidade.
No inicio do século vinte a vida era difícil no interior do Paraná, os imigrantes italianos viviam em roças, em casas com pouca estrutura, sem água encanada ou qualquer outra benesse comum aos dias de hoje.
Meu bisavô vivia com a mãe e com a irmã, mais ou menos dez anos mais nova que ele. Ele um rapaz de uns dezesseis anos, trabalhador e honesto, sua mãe já não podia trabalhar, pai falecido e irmã pequena, de uns cinco anos.
Um dia, ao voltar da roça, viu a casa bagunçada, os cães recolhidos, a mãe amarrada na cama e a irmã sangrando, deitada na cama, encolhidinha. Havia, aos seus cinco anos de idade, sido rudemente estuprada por um vizinho.
Soube da autoria pela irmã, que entre os gemidos de dor lacerante lhe disse o nome de quem lhe fizera tamanha hediondade. A mãe não falava, tamanha a dor e trauma.
Armou sua garrucha. Para quem não sabe, uma garrucha era uma arma rudimentar, de dois tiros, armada com pólvora preta e projétil de chumbo, ou qualquer coisa que servisse como bala. Pegou sua melhor faca e um bom pedaço de carne salgada, e foi para a casa desse vizinho. O ódio era tanto que uma grande frieza e capacidade de raciocínio o acometeu. Sabia exatamente o que fazer.
Ao chegar na roça do vizinho, após longa caminhada, jogou a carne para os dois cães da casa, que já o tinham visto algumas vezes. O referido algoz estava, junto com um irmão e a mãe, sentados comendo. Tanta naturalidade após tanta barbárie. Homens cruéis e boçais são assim… Fazem o que fazem e não se importam. Não há germe de arrependimento. Essa é a diferença de uma alma boa para a má: a banalidade do que se comete de maldade.
Ao chegar, de forma mansa, foi avisando que queria pão, confundindo os algozes de sua irmã. Ao chegar perto, sacou a garrucha e matou o primeiro. O segundo, mais gordo e lento, ele matou na faca, que sacou logo em seguida ao largar a garrucha. A mãe dos dois ficou atônita. Ele nada falou e ficou olhando para a mulher, que não chorou nem se desesperou, talvez soubesse do ato sórdido dos filhos, ou de outros, ou estivesse mesmo paralisada. Olhou nos seus olhos como um predador olha para a presa, havia vazio no seu olhar… só o vazio.
Meu Bisavô não enfrentou os cães, eles o conheciam e a carne garantiu uma entrada e saída pacífica, fato até curioso. Pegou a garrucha, a faca, limpou o sangue e foi pra casa.
Ao voltar viu com precisão o péssimo estado da irmã, sangrando e gemendo de dor na sua cama de palha. A menina era muito pequena, até mesmo para a idade, e era grave o estado. A mãe ainda prostada, sem saber o quê fazer. Foi à cidade procurar médico, seria uma longa caminhada, e voltou sem lograr achar nenhum. Achou uma parteira, que voltou com ele. Boa alma que se propôs a ajudar.
Nada pôde ser feito, e a menina morreu por conta da grande hemorragia. Seu rosto espelhava o terror da sua morte prematura e cruel. Um grupo de vizinhos se prontificou a arrumar enterro. Foi traumático também para todos que souberam do fato.
Meu bisavô, em parte por não ter nada mais naquela região, em parte por temer a policia ou quem lhe fizesse as vezes, foi embora daquela região, e nunca mais voltou. Sua mãe ficou com uma vizinha, que também era aparentada.
Constituiu família em outro lugar. Mas a alma estava escurecida para sempre. Viveu, perdeu uma perna em um acidente, nunca festejou nada na vida… Morreu cercado pela nova família, mas não pôde conviver com sua irmãzinha.
Dalí e por todo o sempre, ao ver uma doce criança brincando, seu coração se enegrecerá, lembrará da dor e da fragilidade que é a felicidade e a paz. Sempre terá em sua alma a prontidão contra a estupidez e boçalidade humana. Sua alma será sempre sombria, mas nunca má.
Meu nobre bisavô, nunca compreendido na sua solidão, não compreendido pela família, posto seu segredo nunca ter sido revelado, meu bisavô que não conheci… Perdoe-me por tornar público aquilo o que o senhor escondeu por toda a vida. Mas se eu soube da sua triste história, em confuso e aterrorizante sonho, talvez seja o senhor me permitindo seu uso. Talvez ela sirva de reflexão para alguém.
Vereor Nox.