Arquivo do mês: junho 2013

Criança nas trevas

Francisco nasceu em uma comunidade muito simples, em uma pequena cidade do interior. Seus pais viviam na zona rural e eram muito pobres, tinham vários filhos.
Com a pobreza e a fome, seu pai não suportou o peso e enlouqueceu, saiu vagando por uma estrada e não foi mais visto. Seu patrão exigia muito trabalho e havia triste esquema de venda de produtos na fazenda, aonde os empregados só podiam comprar no armazém de lá, que vendia tudo muito caro e acabava por comprometer o salário, e gerar enorme dívida. Praticamente uma escravidão.
Sua mãe e seus inúmeros irmãos não tinham como se sustentar. Resolveram então ir todos a cidade, tentar vida nova.
Ele era o último dos irmãos. Sua mãe o deixou, com 03 anos de idade num orfanato, mantido pela Igreja Católica, em uma cidade que passaram.
Francisco era muito belo, branco, rosto delicado, de cabelos aloirados.
O padre que cuidava do local logo se afeiçoou ao garoto.
O problema é que, com o passar do tempo, o padre o cativava e o fazia crer que ele era seu protetor, e dormia junto com o garoto. Fazia crer ao garoto que tudo aquilo era normal, que a dor era normal e que ele o amava. Pior ainda, fazia o garoto crer que lhe devia gratidão pelo seu acolhimento e sustento.
O garoto não convivia com os demais garotos, o padre não o deixava conviver com os demais porque assim ele compreenderia o que estava ocorrendo.
Com seu crescimento, o padre não mais se interessava pelo garoto, tendo conhecido outro, mais novo. Antes dos dez anos nosso triste personagem começou a conviver com os outros meninos.
Os demais garotos faziam a mesma coisa que o padre lhe fazia, com uma agravante: lhe insultavam e o humilhavam, pois ele era a “mulher do padre”. Ocorreram tardes onde verdadeira fila de meninos se revezavam para o seviciar.

Quem não se lembra das antigas brincadeiras infantis de corrida, com o chavão “quem chegar por ultimo é a mulher do padre”? Eis aí a sinistra origem da brincadeira, pois era coisa comum antigamente em orfanatos, determinados padres, nada comprometidos com o que era correto, escolherem os seus garotos, tais quais prisioneiros antigos em uma prisão, em relação aos novos que chegam. Obviamente havia padres vocacionados e de bem, mas havia também os criminosos que assim agiam, se escondendo nas vestes de um sacerdote. Isso é fato. Infelizmente fato até hoje, conforme retratado na imprensa. Nenhuma instituição está livre dessa contaminação.

Francisco se matou com aproximadamente doze anos de idade, com uma navalha do padre que agora lhe era muito hostil. Ele pediu a navalha emprestada para aparar alguns pelos que se iniciavam em suas pernas. Era um garoto mirrado, pequeno.
Cortou sua própria garganta. Precisou engolir o choro e a repulsa, e passar a navalha afiada na própria garganta. Não suportava mais servir de latrina humana para os garotos do orfanato, que lhe eram horrivelmente hostis. Francisco tinha muita mágoa, não sabia de nada, quem era sua mãe, ou da razão de estar lá. Só sabia que sofria horrivelmente.

Não comia muitas vezes, pois os garotos lhe tomavam o prato, e os administradores do orfanato se riam. Alguns o procuravam para lhe dar o que comer, e depois o usavam de latrina humana, que era exatamente o que ele era ali. Os servidores do orfanato, a despeito de saberem o que ocorria, principalmente ao ver com frequencia as roupas intimas sujas, se omitiam vergonhosamente.

Quando um adulto desacredita no mundo, ainda tem suas lembranças. Quando uma criança desacredita no mundo, ela não tem absolutamente nada. Assim era Francisco. Não tinha absolutamente nada. Seu corpo foi achado num galpão do orfanato, e enterrado sem qualquer cerimônia. Na verdade enterraram seu corpo aonde se enterravam os cães, num terreno perto dali, em parte para esconder o fato, em parte por não o respeitarem.

No astral foi acolhido por sinistra família. E agora é um dos pouco conhecidos, mas muito temidos exus mirins. Na verdade não há um nome terreno para a sinistra família que o acolheu. E poucos a sentem, mas é muito poderosa e dita alguns caminhos do mundo.

Hoje não há como convencê-lo do amor do Cristo. Como convencê-lo depois que foi confiado aos cuidados de monstros, travestidos de representantes da Igreja? Por ser uma boca a mais para se sustentar em uma família que assim não o podia fazer, e ao ser assim depositado no seio de um orfanato, e ter sido vítima de tão ignóbeis atos? Como?

Hoje é sinistra criança demônio, que poucos podem lidar.


A Menina Polonesa

A única lembrança que não sai da minha cabeça é aquela manhã cinza de uma cidade que não lembro o nome, na Polônia ocupada, onde reunimos um grupo de civis para transportá-los para um campo de contenção.

Estava bem frio naquele dia e o céu estava cinza.

Chegamos em diversos caminhões, nossas tropas rapidamente tomaram toda a cidade e começamos a retirada dos civis. Apesar de frio o lugar era bonito, com umas montanhas cinzas ao fundo, e a cidade era tão alemã quantos as cidades alemãs que eu conhecia.
O grupo que minha tropa reuniu era de pessoas comuns, mas muito articuladas, que esboçaram uma pronta reação. Estavam muito indignados. Aparentavam ser gente normal, professores, comerciantes, enfim.

Nosso comandante oficial, após ter recebido algumas ofensas, que sequer lhe ofenderam de fato, mandou separar os homens das mulheres.

Os homens foram executados a tiros de rifle, ali mesmo. Jovens, velhos pouco importava. Após a execução de todos eles, as mulheres foram convocadas para empilhar os mortos. Isso lhes causou enorme repulsa, e se revoltaram muito.

Nosso comandante ordenou então a execução de todos.
Ordenamos as mulheres em filas, e as executávamos a tiros como aos homens.

Eles, mesmos baleados, não acreditavam no que estava acontecendo.
Uma delas estava com uma menina de uns quatro anos no colo.

Um soldado a retirou dos braços da mãe e a mesma foi morta naquele instante.
A menina ficou totalmente perdida, olhava o cadáver da mãe e nada entendia.
Olhou para mim com um olhar vazio que jamais esquecerei. Era um misto de desespero e descrença. Pobre menina! Seu olhar havia perdido o brilho natural. Como o olhar de uma criança poderia perder seu brilho? Seu olhar foi horrível e dolorido. Senti um misto de tristeza, incapacidade e angústia. Uma menina pequena, andando em círculos, pedindo socorro com os olhos.
Como seu olhar era dolorido! Seus olhos viram o impensável. Ela vira sua mãe morta, na sua frente. Olhou pra mim. Ficava olhando para mim.
Seu olhar jamais em tempo algum me será esquecido. Lembro que ela estava
com uma sandália. Que frio aquela menina deveria estar sentindo!

O que diabos estávamos fazendo? Eu a peguei nos meus braços e solicitei ao comandante que fosse poupada. Ao ouvir isso tiraram ela de mim, tiraram meu rifle, me esbofetearam e me colocaram de joelhos com uma pancada na minha perna e a mataram, na minha frente, me fazendo ver a cena. Fui detido no mesmo momento. Havia cometido ilícito militar. Ainda era soldado, mas fui imediatamente transferido para o front oriental, para combater os russos. Nem deu tempo de escrever para minha mãe, pedir para ela orar por mim.

No front oriental tudo era muito difícil, não era a toa que nossos soldados a chamavam de “terra da carne congelada”. Impressionante como os russos defendiam suas terras. Avançávamos por quilômetros vazios e tudo congelava. A resistência era fortíssima quando a encontrávamos, mas o que enfrentávamos de pior era o frio e fome. Aqueles porcos dos nossos comandantes tinham comida, vinho e aquecimento, nós não, nós éramos quase que como bichos para eles. Dormíamos todos juntos, sem tirar o uniforme.
Tirar a bota era o mesmo que perder o pé por conta do frio.

Recordo-me muito de quando fiquei na Polônia. Nosso exército havia tomado todo o país, fazendo fronteira com a parte invadida pela Rússia.
Houve uma ocasião em que um companheiro de quartel, enquanto fazia a ronda, foi abordado por umas crianças polonesas. Elas pediam pão. Esse meu companheiro entrou no quartel e pegou um saco, e deu esse saco para as crianças. Nele havia fezes. Esse homem havia dado fezes a crianças que pediam pão. Lembro de as ter visto sair, tristes e desorientadas, e do meu colega de armas rir. Por Deus, isso aconteceu mesmo, mas nem eu mesmo acredito no que vi.
Retornei para Berlim, pois todo esforço acabou se revertendo para a defesa da cidade. No retorno descobri que minha cidade havia sido devastada, e que muito provavelmente minha mãe havia morrido. Chorei escondido de todos. Era a única pessoa que eu tinha no mundo, eu a amava muito, ela sempre foi muito amiga minha. No mundo éramos eu e ela apenas, meu pai havia morrido eu ainda era pequeno, e eu não tive irmãos. Como tive saudade da minha infância, éramos muito pobres, mas tínhamos uma vida tranqüila. Eu ia a escola e a igreja com minha mãe. Sei que ela devia ter sofrido muito quando fui convocado.

Nossos comandantes nos insuflavam contra os ingleses e americanos, os chamando covardes. Acaso um piloto americano fosse visto, por conta de ejeção nos combates aéreos, era para ser imediatamente conduzido a interrogatório. Participei do fuzilamento de alguns.

O retorno a Berlim foi terrível, ao passar pela terra víamos a destruição, tudo acabado. Cidades inteiras destruídas e pessoas perdidas aqui e ali. Não passei pela minha cidade, queria ver aonde minha mãe poderia estar enterrada, mas não pude.

Fomos a Berlim esperar o inevitável.
Lembro-me do dia em que o setor da cidade onde estava fora invadido. A cidade sofrera pesado bombardeiro, um enxame de aeronaves sobrevoava e nossa aviação de guerra simplesmente não aparecia, aliás, há muito não aparecia. Estávamos sem comunicação com o comando, se é que ele ainda existia naquele momento, sem querosene para os carros, com fome e quase sem munição também. Estávamos a esperar o exército vermelho. Os russos nos tinham muito ódio. O dia estava claro, e a cidade em ruínas.

Na larga avenida onde fora montada uma barricada estávamos eu e uma tropa de soldados, que mais pareciam indigentes. Estávamos com tanto medo que nem respirávamos direito. Nossas ações estavam como que refreadas. Doíam todos os músculos das pernas e braços. Enfrentar o exército vermelho naquelas condições era o mesmo que enfrentar a morte. O tiroteio não foi forte porque recuamos. Não adiantava se entregar aos russos, eles simplesmente nos matariam.
Na minha fuga para o centro da cidade vi um grupo de meninos, perto de um prédio desmoronado. Meninos pequenos, com medo, totalmente desamparados, alguns quase nus, descalços, com a mesma ausência de brilho no olhar daquela menina.

Parei. Larguei meu rifle, tirei meu capacete, andei de mãos para cima em direção aos russos. Queria fazê-los parar. Tentar falar com
eles. Eu sabia algumas palavras em russo. Dois deles, os que vinham à frente da turba que estava ao longe, ajoelharam e armaram seus rifles, apontara para mim e me alvejaram. Não senti nada. As balas me atravessaram. Pus as mãos no meu ventre perfurado, senti o calor do meu sangue fluindo. Ajoelhei.

Não tive coragem de olhar para onde estavam os meninos, mas sabia que eles estavam me vendo. Ajoelhado, fiquei olhando aquela multidão que passava por mim, até minha visão sumir e eu adormecer.

Aqui eu ainda procuro aquela menina para pedir perdão pelo que fizemos, mas não a encontro. Acho que ela não está nesse vale. Procuro também aqueles meninos, para saber se escaparam. Queria poder sair desse lugar, mas aqui é confuso. Fui trazido para esse lugar e estou preso nele.
Parece um vale de noite eterna. Meus carcereiros usam uma suástica diferente, mas sei que são nazistas também. Malditos  desgraçados. Sequer explicam o porquê disso. Também sou alemão, mas não há sequer uma explicação.

Fui um bom homem, mas não sei se mereço sair daqui, acho que por tudo que vi e fiz, esse seja meu lugar. Só queria de alguma forma poder ver minha mãe e poder saber se aquela menina está bem. Ambas não mereceriam estar nesse maldito lugar.

 

 

 

Fragmento do livro Fantasmas – as suas horas finais


A Bruxa

Ela se levantou do catre imundo. Era duro, mas já estava acostumada. Com dificuldade se levantou e olhou nos olhos dos seus executores. Aceitou a injeção letal.

Enquanto esperava o efeito, pensava em tudo que passou na vida. Nada fora mais triste que saber da morte do seu noivo, presumida na verdade, mas tida por certa tamanha a violência do combate, e sofrer logo em seguida o fim da sua gestação… Não teria o filho do seu amado.

Lembrou dos momentos em que empenhou seu rifle e lutou ao lado das Bruxas. Levaria essa alcunha para o mundo dos mortos. Lembrou de cada combate, cada tiro disparado, cada soldado alemão caído. Lembrou das eternas noites em campanha, da fome, do frio, da longa e solitária espreita. Lembrou dos homens que via pela luneta do seu rifle, antes de atirar. Alguns tinham o semblante parecido com o do seu noivo. Lembrou da prisão, da violência sofrida, dos espancamentos e de como ganhou a negra cicatriz no rosto.

Andou com dificuldade até a sala aonde tudo acabaria, e aguardou o momento final. O camarada enfermeiro tentou lhe falar algo reconfortante, disse vagamente que daria o nome dela ao bebê que estava esperando, acaso fosse menina.

Irina disse que teve uma vida triste, que não lhe desse esse nome, talvez poupasse a criança de uma vida sofrida.

Pensou na grande União Soviética, vencedora da guerra, pensou em si, que apesar de tudo havia se tornado um peso, e que agora lhe cumpria o último dever como miliciana… o dever de morrer.

Deitou-se e dormiu.

Não havia revolta no seu coração. Apenas uma enorme tristeza e um grande vazio sem esperança.

A União Soviética, pelo que entendi ao vislumbrar seus pensamentos, estava eliminando os doentes daquele asilo público, talvez por falta de recursos, e como Irina não tinha ninguém, e estava muito doente, entenderam por lhe dar um veneno, que lhe seria indolor. Talvez um último presente dentro das possibilidades de um estado ateu, recém saído da grande guerra, em honra à miliciana que foi.

Os administradores sabiam que ela havia lutado ao lado do exército vermelho. Sabiam que havia sido uma atiradora destemida. Mas não sabiam a origem da enorme cicatriz que tinha no rosto, nem exatamente do porquê dela se referir a si própria como uma bruxa. Ela quase não falava.

Eles não sabiam que ela havia sido uma jovem honesta e trabalhadora, fiel moradora de uma das inúmeras fazendas comunitárias do interior. Que se casaria com um formoso rapaz.

Quando da eclosão da invasão, rápida e devastadora, e assim como todos os homens em condições de lutar, seu futuro esposo foi convocado pelo exército vermelho. Antes de sair, contudo, consumaram seu afeto e união. Desse ato acreditou fortemente que havia engravidado.

Ela também acabou, ao lado dos seus, abandonando a fazenda. Se dirigiram como retirantes para o interior. Com muita dificuldade no campo de refugiados, aonde permaneceram ela, a família e um sem número de pessoas, ficou sabendo da provável morte de seu futuro marido, cuja divisão havia combatido e sido dizimada próximo à sua cidade natal. Nesse mesmo dia, após sofrer fortes dores e muito sangramento, perdera a criança.

Com o passar dos dias e meses, quase sem ter o quê comer, acreditou que talvez tivesse sido melhor assim. Viu a fome e a doença arrebatar-lhe o pai e a mãe. Não havia mais homens jovens, nem mesmo velhos, nem comida ou recursos, e o diretório do partido convocava agora as mulheres para o combate.

Se apresentou, e se reuniu com o grupo das velhas bruxas.

Vi seu vulto caminhando à distância, e sentando num lugar ermo. Não era hostil, mas também não era amigável. Era um vulto que perambulava apenas, contemplando o mundo dos homens. Diria até que se assustou quando lhe dirigi meu pensamento, talvez se julgasse invisível à sensibilidade humana. Por pensamento, uma vez que não falo russo nem tão pouco ela minhas erradas línguas, me mostrou como havia sido sua vida. Me confidenciou que até gostava de estar morta, pois em vida nada de bom lhe havia acontecido, e como morta, ao menos, tinha parado de sofrer. Temia estar louca, e que tudo fosse um horrível e interminável pesadelo, do qual não acordava jamais.

Me contou que procurou alguns dos entes queridos, mas a eterna noite e os caminhos confusos do mundo não lhe permitiram alcançar seu intento. Apesar de saber da sua condição, não acreditava em nada. Como acreditar em algo bom, além do gênero humano, após tudo que viveu? Acreditava apenas que a bondade e a paz são frágeis, simples e não são páreo à violência do mundo, ou à natureza humana. Bondade e paz não são páreo ao caos que é a vida. Acreditava apenas no caos.

Era a alma de uma bruxa, que eu em vão eu quis abraçar.

Algumas almas de um passado muito distante a acolheram. Do nada surgiram, algum tempo depois. Pareciam clérigos ou sacerdotes de alguma fantasia medieval. Não sei bem o que falaram, nem para onde a levaram, nem do porquê do aparecimento.

Rogo ao Senhor para que alguém em algum lugar a possa resgatar desse terrível pesadelo. A única visita que recebeu em todos esses anos estando no inferno foi a minha, alguém tão distante no tempo e no espaço que se afigura, a ela, como um fantasma também.

Deus, receba Irina em seus braços, permita que o tempo possa voltar e seguir seu curso sem a maldita guerra, em alguma realidade alternativa, e ela possa reviver sua vida com seu esposo e seu filho.

Vereor Nox