Ela se levantou do catre imundo. Era duro, mas já estava acostumada. Com dificuldade se levantou e olhou nos olhos dos seus executores. Aceitou a injeção letal.
Enquanto esperava o efeito, pensava em tudo que passou na vida. Nada fora mais triste que saber da morte do seu noivo, presumida na verdade, mas tida por certa tamanha a violência do combate, e sofrer logo em seguida o fim da sua gestação… Não teria o filho do seu amado.
Lembrou dos momentos em que empenhou seu rifle e lutou ao lado das Bruxas. Levaria essa alcunha para o mundo dos mortos. Lembrou de cada combate, cada tiro disparado, cada soldado alemão caído. Lembrou das eternas noites em campanha, da fome, do frio, da longa e solitária espreita. Lembrou dos homens que via pela luneta do seu rifle, antes de atirar. Alguns tinham o semblante parecido com o do seu noivo. Lembrou da prisão, da violência sofrida, dos espancamentos e de como ganhou a negra cicatriz no rosto.
Andou com dificuldade até a sala aonde tudo acabaria, e aguardou o momento final. O camarada enfermeiro tentou lhe falar algo reconfortante, disse vagamente que daria o nome dela ao bebê que estava esperando, acaso fosse menina.
Irina disse que teve uma vida triste, que não lhe desse esse nome, talvez poupasse a criança de uma vida sofrida.
Pensou na grande União Soviética, vencedora da guerra, pensou em si, que apesar de tudo havia se tornado um peso, e que agora lhe cumpria o último dever como miliciana… o dever de morrer.
Deitou-se e dormiu.
Não havia revolta no seu coração. Apenas uma enorme tristeza e um grande vazio sem esperança.
…
A União Soviética, pelo que entendi ao vislumbrar seus pensamentos, estava eliminando os doentes daquele asilo público, talvez por falta de recursos, e como Irina não tinha ninguém, e estava muito doente, entenderam por lhe dar um veneno, que lhe seria indolor. Talvez um último presente dentro das possibilidades de um estado ateu, recém saído da grande guerra, em honra à miliciana que foi.
Os administradores sabiam que ela havia lutado ao lado do exército vermelho. Sabiam que havia sido uma atiradora destemida. Mas não sabiam a origem da enorme cicatriz que tinha no rosto, nem exatamente do porquê dela se referir a si própria como uma bruxa. Ela quase não falava.
Eles não sabiam que ela havia sido uma jovem honesta e trabalhadora, fiel moradora de uma das inúmeras fazendas comunitárias do interior. Que se casaria com um formoso rapaz.
Quando da eclosão da invasão, rápida e devastadora, e assim como todos os homens em condições de lutar, seu futuro esposo foi convocado pelo exército vermelho. Antes de sair, contudo, consumaram seu afeto e união. Desse ato acreditou fortemente que havia engravidado.
Ela também acabou, ao lado dos seus, abandonando a fazenda. Se dirigiram como retirantes para o interior. Com muita dificuldade no campo de refugiados, aonde permaneceram ela, a família e um sem número de pessoas, ficou sabendo da provável morte de seu futuro marido, cuja divisão havia combatido e sido dizimada próximo à sua cidade natal. Nesse mesmo dia, após sofrer fortes dores e muito sangramento, perdera a criança.
Com o passar dos dias e meses, quase sem ter o quê comer, acreditou que talvez tivesse sido melhor assim. Viu a fome e a doença arrebatar-lhe o pai e a mãe. Não havia mais homens jovens, nem mesmo velhos, nem comida ou recursos, e o diretório do partido convocava agora as mulheres para o combate.
Se apresentou, e se reuniu com o grupo das velhas bruxas.
…
Vi seu vulto caminhando à distância, e sentando num lugar ermo. Não era hostil, mas também não era amigável. Era um vulto que perambulava apenas, contemplando o mundo dos homens. Diria até que se assustou quando lhe dirigi meu pensamento, talvez se julgasse invisível à sensibilidade humana. Por pensamento, uma vez que não falo russo nem tão pouco ela minhas erradas línguas, me mostrou como havia sido sua vida. Me confidenciou que até gostava de estar morta, pois em vida nada de bom lhe havia acontecido, e como morta, ao menos, tinha parado de sofrer. Temia estar louca, e que tudo fosse um horrível e interminável pesadelo, do qual não acordava jamais.
Me contou que procurou alguns dos entes queridos, mas a eterna noite e os caminhos confusos do mundo não lhe permitiram alcançar seu intento. Apesar de saber da sua condição, não acreditava em nada. Como acreditar em algo bom, além do gênero humano, após tudo que viveu? Acreditava apenas que a bondade e a paz são frágeis, simples e não são páreo à violência do mundo, ou à natureza humana. Bondade e paz não são páreo ao caos que é a vida. Acreditava apenas no caos.
Era a alma de uma bruxa, que eu em vão eu quis abraçar.
Algumas almas de um passado muito distante a acolheram. Do nada surgiram, algum tempo depois. Pareciam clérigos ou sacerdotes de alguma fantasia medieval. Não sei bem o que falaram, nem para onde a levaram, nem do porquê do aparecimento.
Rogo ao Senhor para que alguém em algum lugar a possa resgatar desse terrível pesadelo. A única visita que recebeu em todos esses anos estando no inferno foi a minha, alguém tão distante no tempo e no espaço que se afigura, a ela, como um fantasma também.
Deus, receba Irina em seus braços, permita que o tempo possa voltar e seguir seu curso sem a maldita guerra, em alguma realidade alternativa, e ela possa reviver sua vida com seu esposo e seu filho.
Vereor Nox
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