Arquivo do dia: 13/06/2013

A Menina Polonesa

A única lembrança que não sai da minha cabeça é aquela manhã cinza de uma cidade que não lembro o nome, na Polônia ocupada, onde reunimos um grupo de civis para transportá-los para um campo de contenção.

Estava bem frio naquele dia e o céu estava cinza.

Chegamos em diversos caminhões, nossas tropas rapidamente tomaram toda a cidade e começamos a retirada dos civis. Apesar de frio o lugar era bonito, com umas montanhas cinzas ao fundo, e a cidade era tão alemã quantos as cidades alemãs que eu conhecia.
O grupo que minha tropa reuniu era de pessoas comuns, mas muito articuladas, que esboçaram uma pronta reação. Estavam muito indignados. Aparentavam ser gente normal, professores, comerciantes, enfim.

Nosso comandante oficial, após ter recebido algumas ofensas, que sequer lhe ofenderam de fato, mandou separar os homens das mulheres.

Os homens foram executados a tiros de rifle, ali mesmo. Jovens, velhos pouco importava. Após a execução de todos eles, as mulheres foram convocadas para empilhar os mortos. Isso lhes causou enorme repulsa, e se revoltaram muito.

Nosso comandante ordenou então a execução de todos.
Ordenamos as mulheres em filas, e as executávamos a tiros como aos homens.

Eles, mesmos baleados, não acreditavam no que estava acontecendo.
Uma delas estava com uma menina de uns quatro anos no colo.

Um soldado a retirou dos braços da mãe e a mesma foi morta naquele instante.
A menina ficou totalmente perdida, olhava o cadáver da mãe e nada entendia.
Olhou para mim com um olhar vazio que jamais esquecerei. Era um misto de desespero e descrença. Pobre menina! Seu olhar havia perdido o brilho natural. Como o olhar de uma criança poderia perder seu brilho? Seu olhar foi horrível e dolorido. Senti um misto de tristeza, incapacidade e angústia. Uma menina pequena, andando em círculos, pedindo socorro com os olhos.
Como seu olhar era dolorido! Seus olhos viram o impensável. Ela vira sua mãe morta, na sua frente. Olhou pra mim. Ficava olhando para mim.
Seu olhar jamais em tempo algum me será esquecido. Lembro que ela estava
com uma sandália. Que frio aquela menina deveria estar sentindo!

O que diabos estávamos fazendo? Eu a peguei nos meus braços e solicitei ao comandante que fosse poupada. Ao ouvir isso tiraram ela de mim, tiraram meu rifle, me esbofetearam e me colocaram de joelhos com uma pancada na minha perna e a mataram, na minha frente, me fazendo ver a cena. Fui detido no mesmo momento. Havia cometido ilícito militar. Ainda era soldado, mas fui imediatamente transferido para o front oriental, para combater os russos. Nem deu tempo de escrever para minha mãe, pedir para ela orar por mim.

No front oriental tudo era muito difícil, não era a toa que nossos soldados a chamavam de “terra da carne congelada”. Impressionante como os russos defendiam suas terras. Avançávamos por quilômetros vazios e tudo congelava. A resistência era fortíssima quando a encontrávamos, mas o que enfrentávamos de pior era o frio e fome. Aqueles porcos dos nossos comandantes tinham comida, vinho e aquecimento, nós não, nós éramos quase que como bichos para eles. Dormíamos todos juntos, sem tirar o uniforme.
Tirar a bota era o mesmo que perder o pé por conta do frio.

Recordo-me muito de quando fiquei na Polônia. Nosso exército havia tomado todo o país, fazendo fronteira com a parte invadida pela Rússia.
Houve uma ocasião em que um companheiro de quartel, enquanto fazia a ronda, foi abordado por umas crianças polonesas. Elas pediam pão. Esse meu companheiro entrou no quartel e pegou um saco, e deu esse saco para as crianças. Nele havia fezes. Esse homem havia dado fezes a crianças que pediam pão. Lembro de as ter visto sair, tristes e desorientadas, e do meu colega de armas rir. Por Deus, isso aconteceu mesmo, mas nem eu mesmo acredito no que vi.
Retornei para Berlim, pois todo esforço acabou se revertendo para a defesa da cidade. No retorno descobri que minha cidade havia sido devastada, e que muito provavelmente minha mãe havia morrido. Chorei escondido de todos. Era a única pessoa que eu tinha no mundo, eu a amava muito, ela sempre foi muito amiga minha. No mundo éramos eu e ela apenas, meu pai havia morrido eu ainda era pequeno, e eu não tive irmãos. Como tive saudade da minha infância, éramos muito pobres, mas tínhamos uma vida tranqüila. Eu ia a escola e a igreja com minha mãe. Sei que ela devia ter sofrido muito quando fui convocado.

Nossos comandantes nos insuflavam contra os ingleses e americanos, os chamando covardes. Acaso um piloto americano fosse visto, por conta de ejeção nos combates aéreos, era para ser imediatamente conduzido a interrogatório. Participei do fuzilamento de alguns.

O retorno a Berlim foi terrível, ao passar pela terra víamos a destruição, tudo acabado. Cidades inteiras destruídas e pessoas perdidas aqui e ali. Não passei pela minha cidade, queria ver aonde minha mãe poderia estar enterrada, mas não pude.

Fomos a Berlim esperar o inevitável.
Lembro-me do dia em que o setor da cidade onde estava fora invadido. A cidade sofrera pesado bombardeiro, um enxame de aeronaves sobrevoava e nossa aviação de guerra simplesmente não aparecia, aliás, há muito não aparecia. Estávamos sem comunicação com o comando, se é que ele ainda existia naquele momento, sem querosene para os carros, com fome e quase sem munição também. Estávamos a esperar o exército vermelho. Os russos nos tinham muito ódio. O dia estava claro, e a cidade em ruínas.

Na larga avenida onde fora montada uma barricada estávamos eu e uma tropa de soldados, que mais pareciam indigentes. Estávamos com tanto medo que nem respirávamos direito. Nossas ações estavam como que refreadas. Doíam todos os músculos das pernas e braços. Enfrentar o exército vermelho naquelas condições era o mesmo que enfrentar a morte. O tiroteio não foi forte porque recuamos. Não adiantava se entregar aos russos, eles simplesmente nos matariam.
Na minha fuga para o centro da cidade vi um grupo de meninos, perto de um prédio desmoronado. Meninos pequenos, com medo, totalmente desamparados, alguns quase nus, descalços, com a mesma ausência de brilho no olhar daquela menina.

Parei. Larguei meu rifle, tirei meu capacete, andei de mãos para cima em direção aos russos. Queria fazê-los parar. Tentar falar com
eles. Eu sabia algumas palavras em russo. Dois deles, os que vinham à frente da turba que estava ao longe, ajoelharam e armaram seus rifles, apontara para mim e me alvejaram. Não senti nada. As balas me atravessaram. Pus as mãos no meu ventre perfurado, senti o calor do meu sangue fluindo. Ajoelhei.

Não tive coragem de olhar para onde estavam os meninos, mas sabia que eles estavam me vendo. Ajoelhado, fiquei olhando aquela multidão que passava por mim, até minha visão sumir e eu adormecer.

Aqui eu ainda procuro aquela menina para pedir perdão pelo que fizemos, mas não a encontro. Acho que ela não está nesse vale. Procuro também aqueles meninos, para saber se escaparam. Queria poder sair desse lugar, mas aqui é confuso. Fui trazido para esse lugar e estou preso nele.
Parece um vale de noite eterna. Meus carcereiros usam uma suástica diferente, mas sei que são nazistas também. Malditos  desgraçados. Sequer explicam o porquê disso. Também sou alemão, mas não há sequer uma explicação.

Fui um bom homem, mas não sei se mereço sair daqui, acho que por tudo que vi e fiz, esse seja meu lugar. Só queria de alguma forma poder ver minha mãe e poder saber se aquela menina está bem. Ambas não mereceriam estar nesse maldito lugar.

 

 

 

Fragmento do livro Fantasmas – as suas horas finais