Arquivo do dia: 25/06/2013

Criança nas trevas

Francisco nasceu em uma comunidade muito simples, em uma pequena cidade do interior. Seus pais viviam na zona rural e eram muito pobres, tinham vários filhos.
Com a pobreza e a fome, seu pai não suportou o peso e enlouqueceu, saiu vagando por uma estrada e não foi mais visto. Seu patrão exigia muito trabalho e havia triste esquema de venda de produtos na fazenda, aonde os empregados só podiam comprar no armazém de lá, que vendia tudo muito caro e acabava por comprometer o salário, e gerar enorme dívida. Praticamente uma escravidão.
Sua mãe e seus inúmeros irmãos não tinham como se sustentar. Resolveram então ir todos a cidade, tentar vida nova.
Ele era o último dos irmãos. Sua mãe o deixou, com 03 anos de idade num orfanato, mantido pela Igreja Católica, em uma cidade que passaram.
Francisco era muito belo, branco, rosto delicado, de cabelos aloirados.
O padre que cuidava do local logo se afeiçoou ao garoto.
O problema é que, com o passar do tempo, o padre o cativava e o fazia crer que ele era seu protetor, e dormia junto com o garoto. Fazia crer ao garoto que tudo aquilo era normal, que a dor era normal e que ele o amava. Pior ainda, fazia o garoto crer que lhe devia gratidão pelo seu acolhimento e sustento.
O garoto não convivia com os demais garotos, o padre não o deixava conviver com os demais porque assim ele compreenderia o que estava ocorrendo.
Com seu crescimento, o padre não mais se interessava pelo garoto, tendo conhecido outro, mais novo. Antes dos dez anos nosso triste personagem começou a conviver com os outros meninos.
Os demais garotos faziam a mesma coisa que o padre lhe fazia, com uma agravante: lhe insultavam e o humilhavam, pois ele era a “mulher do padre”. Ocorreram tardes onde verdadeira fila de meninos se revezavam para o seviciar.

Quem não se lembra das antigas brincadeiras infantis de corrida, com o chavão “quem chegar por ultimo é a mulher do padre”? Eis aí a sinistra origem da brincadeira, pois era coisa comum antigamente em orfanatos, determinados padres, nada comprometidos com o que era correto, escolherem os seus garotos, tais quais prisioneiros antigos em uma prisão, em relação aos novos que chegam. Obviamente havia padres vocacionados e de bem, mas havia também os criminosos que assim agiam, se escondendo nas vestes de um sacerdote. Isso é fato. Infelizmente fato até hoje, conforme retratado na imprensa. Nenhuma instituição está livre dessa contaminação.

Francisco se matou com aproximadamente doze anos de idade, com uma navalha do padre que agora lhe era muito hostil. Ele pediu a navalha emprestada para aparar alguns pelos que se iniciavam em suas pernas. Era um garoto mirrado, pequeno.
Cortou sua própria garganta. Precisou engolir o choro e a repulsa, e passar a navalha afiada na própria garganta. Não suportava mais servir de latrina humana para os garotos do orfanato, que lhe eram horrivelmente hostis. Francisco tinha muita mágoa, não sabia de nada, quem era sua mãe, ou da razão de estar lá. Só sabia que sofria horrivelmente.

Não comia muitas vezes, pois os garotos lhe tomavam o prato, e os administradores do orfanato se riam. Alguns o procuravam para lhe dar o que comer, e depois o usavam de latrina humana, que era exatamente o que ele era ali. Os servidores do orfanato, a despeito de saberem o que ocorria, principalmente ao ver com frequencia as roupas intimas sujas, se omitiam vergonhosamente.

Quando um adulto desacredita no mundo, ainda tem suas lembranças. Quando uma criança desacredita no mundo, ela não tem absolutamente nada. Assim era Francisco. Não tinha absolutamente nada. Seu corpo foi achado num galpão do orfanato, e enterrado sem qualquer cerimônia. Na verdade enterraram seu corpo aonde se enterravam os cães, num terreno perto dali, em parte para esconder o fato, em parte por não o respeitarem.

No astral foi acolhido por sinistra família. E agora é um dos pouco conhecidos, mas muito temidos exus mirins. Na verdade não há um nome terreno para a sinistra família que o acolheu. E poucos a sentem, mas é muito poderosa e dita alguns caminhos do mundo.

Hoje não há como convencê-lo do amor do Cristo. Como convencê-lo depois que foi confiado aos cuidados de monstros, travestidos de representantes da Igreja? Por ser uma boca a mais para se sustentar em uma família que assim não o podia fazer, e ao ser assim depositado no seio de um orfanato, e ter sido vítima de tão ignóbeis atos? Como?

Hoje é sinistra criança demônio, que poucos podem lidar.