Um “J” no passaporte

Bom dia.

Posso contar minha pequena história? Fui uma jovem judia na época da ascensão do nazismo alemão. Minha família tinha uma pequena fábrica de artigos de couro. Vivíamos despreocupados até então.

Com o advento da política de beligerância contra os judeus, e após nos desfazermos de tudo, fomos todos para a Suíça, e lá depositamos todas as nossas economias em um banco. Na Suíça um oficial de fronteiras pegou nossos passaportes. Assinalou algumas coisas e nos devolveu. Podemos ir então para a Áustria e depois fomos para a França, de lá, fomos à América, graças a um conhecido que nos bancou a viagem. Perdemos tudo o que tínhamos, pois nunca mais foi possível voltar para a Suíça, e anos depois a mesma não reconheceu os depósitos efetuados, mas mantivemos nossas vidas, o que é mais importante.

Depois de muitos anos, porém, percebi que aquele oficial de fronteiras havia ajudado muito. Havia-nos salvo de um sofrimento terrível e inimaginável. Ele descumprira ordens de carimbar um “J” laranja em nossos passaportes. Isso nos salvou, porque com esse “J” no passaporte seríamos detectados como judeus no retorno à Alemanha e nosso destino seria um campo de concentração onde horrores e mais horrores eram reservados a nós.

Fiquei sabendo disso muito tempo depois da guerra, por conta da minha mãe, amigos e ao ouvir depoimentos e artigos de história. Isso depois que eu cresci. Depois de ter meus filhos. Depois que soube disso, sempre, sempre e sempre fiz uma oração por aquele oficial, que intencionalmente ou não nos havia salvado. Eu até acreditava que tivemos sorte, apenas. Depois da minha morte, que foi muito tranquila junto aos meus filhos e netinhos, cercada de entes queridos, ao perguntar por esse episódio da minha vida, fui surpreendida pelo fato daquele homem ter salvado centenas de pessoas antes de ser preso. Ele assim agia intencionalmente, não carimbando nada no passaporte de ninguém. Fiquei assombrada pela sua coragem.

Pois bem. Soube que ele foi descoberto, e foi preso. Foi preso, processado e torturado, e depois foi executado num campo de contenção na Alemanha, depois de padecer sofrimentos inimagináveis. Sua história não é conhecida assim como não é de conhecimento geral que outros tantos heróis anônimos que como ele assim agiram e assim morreram, e que agiram contra as autoridades suíças. Muitos deles sabiam da necessidade, e tinham ordens para tanto, de se carimbar o “J” laranja e de que a Alemanha considerava os judeus inimigos do estado.

Gostaria de dizer que depois que aqui cheguei e descobri toda a verdade o procurei. E o achei. Ele não percebe a mim, nem a outros que desejamos ajudar. Ainda está preso nos acontecimentos do passado e ainda sofre das dores do fuzilamento. Sua mente recria a cena do campo cinza, da noite sem estrelas e fria onde soldados o levam nu e machucado para uma parede onde outros corpos jaziam, nus também. O colocaram de joelhos, o humilharam, bateram e atiraram covardemente na sua cabeça. Ele sofre essa repetição mental todos esses anos e não conseguimos ainda fazê-lo enxergar que tudo já passou.

Quero dizer para você que ficarei do lado dele até ele acordar, ainda que dure uma eternidade. Eu vivi e ele não, eu tive filhos e netos, e ele não. Dormi noites tranquilas no recesso do meu lar e ele passou todos esses anos no inferno, nu, de joelhos e sangrando. Pedi para Deus, e assim foi aceito, que ele renasça um dia como meu filho, em terras distantes, num país que recebe a todos de braços abertos, para que eu possa dar a ele todo meu amor e minha gratidão. Que eu possa, com meu amor, refazê-lo como homem, como um dia ele foi e salvou a vários.

Obrigada,

Helga.

trecho do livro Fantasmas – as suas horas finais, de Alexandre Carnevali da Silva

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