Eram dois irmãos.
Ambos militares, uma vez que a elite da época (e da maioria das épocas) era composta por homens oficiais militares.
Descendiam de nobres, donos de várias terras, estudaram nas melhores escolas, tiveram tudo que o mundo podia oferecer. Se tornaram militares uma vez que a liderança política e social, naqueles tempos, era militar. Assim era o caminho natural. Um grande homem, naquele contexto e em todo o passado, tinha que ter sido, em alguma época de sua vida, um militar.
Um oficial médico, outro oficial engenheiro. Ambos altos, atléticos, e muito capacitados.
O sujeito de nossa história era o engenheiro. Antes fora um menino fechado e introvertido. Já homem, era muito versado também em política e ciências sociais, era muito mais capacitado e tinha muito mais consciência que seu irmão. Aliás, por conta dessa enorme capacidade de compreensão que tinha, tomou atitude tão drástica, tão visceral, que justifica esse singelo escrito.
Ele tinha algo em torno dos 32 anos e fora visitar seu irmão em um grande hospital e centro de pesquisa. A essa altura dos acontecimentos a guerra ainda não apresentava uma clara definição do que seria o seu futuro. Início dos anos 40 e os alemães estavam confiantes. Tudo parecia dar certo.
Ao chegar no centro de pesquisas foi recepcionado por seu irmão, que passou a mostrar todas as instalações. Ambos eram muito graduados e uma visita nas instalações era coisa de praxe entre oficiais. Com grande orgulho seu irmão lhe mostraria tudo, pois ali ele era também um importante gestor.
Mostrou os laboratórios, descreveu as principais pesquisas, equipamentos e os objetivos do que se buscava. A excelência na pesquisa humana, nos limites do corpo e mente. Suas pesquisas aprimorariam o sucesso do projeto ubersoldat. Seu irmão estava muito empolgado.
Uma parte das instalações era, contudo, bem sinistra: Quartos escuros aonde se amontoavam inúmeras crianças. Pareciam animais presos, ou doentes mentais. Todos amontoados, meninos e meninas, de avental. Sentados, a maioria no chão, quietos, de cabeça baixa. Alguns nos colos dos outros. Não havia brinquedos, nem os seus pais estavam lá. Janelas cerradas e cheiro de urina. Nada além de um quarto de cadeia cheio de crianças pequenas.
No final da visita, ainda dentro das instalações, nosso homem viu ainda um bando de crianças, umas de uns cinco anos de idade, ou menos, e duas de uns oito anos. Estavam descalços, com um avental muito simples de hospital, em fila e de cabeça baixa. Pareciam prisioneiros. Andavam empurradas por um soldado da SS que parecia um gigante perto delas.
Ao cruzar com nosso oficial, uma delas, um menino de uns quatro anos, olhos bem negros, magro, o olhou. A feição de um prisioneiro, o semblante entristecido, enrugado, magro, cabelos ralos, raspados. Logo foi empurrado pelo guarda e voltou a andar. Seus olhos eram olhos de uma criança, mas de uma criança sem esperança, sem brilho, atormentada e infeliz.
Naqueles segundos que seu olhos se encontraram, o nosso oficial foi tragado para dentro de si próprio.
Ao perguntar para seu irmão o que era aquilo, ouviu que se tratavam de cobaias. Seriam usadas para experimentos. Delineou as vantagens para todos pelo pequeno sacrifício de algumas vidas. O estado e o povo eram mais importantes do que algumas crianças judias ou ciganas. Assim era a natureza e o direito natural do mais forte. O destino da humanidade era mais importante.
Nosso oficial e seu irmão foram almoçar. Comeu pouco. Deixou seu irmão e voltou para casa. Amanhã terminaria sua folga e voltaria para seus próprios projetos.
Naquela noite, deitado, lembrou de um antigo professor, que gostava muito. Com ele tivera muitas horas de debate. Era judeu. Acreditava que ele estivesse na Áustria naqueles dias, afinal, com o aumento da beligerância contra os judeus ele havia partido. Sua cabeça era um turbilhão de pensamentos. Lembrou do que lera sobre o Grande Saladino, o grande cavaleiro mouro da época das cruzadas. Das histórias de Ricardo Coração de Leão e de outras histórias medievais que tanto gostava de quando era garoto. Lembrou dos códigos de honra dos cavaleiros, devaneios de menino.
Lembrou da sua própria infância, havia sido um garoto solitário e sonhador. Andava sempre sozinho, eventualmente acompanhado de empregados, mas nunca de amigos.
Um homem como o Grande Saladino, seu ídolo lendário, não faria jamais crianças prisioneiras, Saladino até mesmo chegou a mandar frutas e água a inimigos feridos, aquilo que ele tinha visto não tinha honra alguma.
Um guerreiro antes de tudo tinha que ter sua honra. Aonde estava esse princípio? O futuro da nação demandava de fato a escravidão e morte de todas as demais? Era essa a natureza das coisas?
Lembrou naquela noite de uma traição de um seu colega. Das coisas duras que dissera, que não o considerava um homem. Lembrou do pai e mãe já velhos, possuidores de uma grande fortuna e sem qualquer objetivo. Lembrou das suas paixões secretas, tabus secretos para aquele mundo.
Lembrou das histórias dos heróis nórdicos, em como eles protegiam os mais fracos contra os monstros mitológicos. Aquele soldado da SS lhe pareceu um monstro para aqueles meninos. Seu irmão também. E qual a real justificativa para o sacrifício de inocentes? Sua cabeça literalmente ferveu naquela noite.
Era um homem muito letrado e tinha muita consciência do que acontecia, e não carreava a idéia que estava a vigorar naqueles tempos. Amava seu país, mas não amava o regime vigente. País e regime eram coisas claramente diferentes, apesar da tentativa dos líderes, e em grande parte bem sucedida, de amalgamar os dois.
Naqueles tempos não era dado discutir política como hoje, e apesar do nosso personagem ser muito politizado, e ter um cargo importante nas forças armadas, não havia ninguém para externar seus pensamentos. Na verdade, ele sequer tinha amigos, era um homem muito solitário. Lera os maiores pensadores, desde Maquiavel a Santo Agostinho. Não fosse engenheiro, seria um livre pensador e provavelmente estaria preso por contestar o regime. Como já explanado, ele não poderia abrir seus pensamentos com ninguém, nem mesmo seu irmão. Apenas com seu antigo professor ousou, em parte, fazer isso.
Naquele momento era fato também que os militares alemães, assim como muitos da sociedade, tinham grande receio do poder absoluto que os membros da SS tinham. Sua patente não o iria proteger se ele ousasse discutir os rumos do país, com qualquer um que fosse.
Aquela imagem do garoto lhe marcou muito. Foi aí que delineou um plano. Não seria ele também, escravo de monstros imorais. Um escravo com regalias, com uniforme, mas escravo também. O menino sonhador e solitário que havia dentro dele tomou o controle de seu espírito.
Idealizou que, com igualdade de armas, talvez a guerra se encerrasse, talvez a vida pudesse retornar ao curso normal, e os monstros da SS voltariam para o buraco de onde vieram.
Tivera, noutro dia, curioso sonho com um mestre cavaleiro dos tempos medievais, aonde discutiram filosofia e religião. Sonho curioso e confuso…
Nosso personagem era um dos engenheiros chefes de um muito bem elaborado projeto da aviação militar. Ele mesmo tinha muita experiência em aviões, tinha até um para uso particular e recreio.
Naquela semana estava testando um protótipo de avião muito avançado, com ideias inovadoras que ele próprio concebeu, junto com o aval dos maiores engenheiros de então. Realmente, apesar dos 32 anos compreendia muito bem a aviônica. O protótipo contava também com um sistema de canhões muito poderoso, de alcance superior, além do sistema de mira eletrônica, que aumentava e muito sua precisão. Também um protótipo. Além das armas, a aeronave trazia consigo equipamentos de pressurização da cabine e de navegação eletrônica de última ponta. Ele era o responsável técnico e também representante do exército em uma pequena mas bem colocada companhia que cresceria muito caso o projeto frutificasse.
Nos teste finais se confirmou uma excelente aeronave de longo alcance, que poderia evoluir em conjunto com os projetos em andamento dos motores a jato, e seria capaz de qualquer ataque. Umas poucas dessas naves combateriam um número muito maior de inimigos. Esse avião navegaria com intrincado sistema de radar e detecção noturna. Seria a última palavra em tecnologia de guerra aérea. Eventualmente poderia atacar os aliados no seu âmago.
O protótipo testado, e único existente, estava equipado com motores turboélice, mas já contava com todos os sistemas de ultima geração, e por si só já era muito eficaz. Se entrasse em produção, seria um excelente interceptador ou bombardeiro médio, capaz de ir além dos demais aviões.
Num determinado dia dos testes, como era um dos engenheiros chefes, nosso personagem manipulou relatórios e ordens de convocação de outros aviadores. Pegou suas cópias de projetos, especificações de motores e armas, e deu um jeito de colocar tudo numa mochila de paraquedas.
Emitiu antes ordens para abastecer o aviação completamente, inclusive com tanques adicionais. Justificou que era para determinar quantas horas de funcionamento ininterrupto o avião suportaria. Não levantou suspeitas, uma vez que esse teste era de fato previsto, ele apenas o adiantou.
Tudo pronto e preparado, ele mesmo pilotaria o avião pelas primeiras horas. Solicitou mais uma vez a honra de pilotar o fruto do próprio trabalho. O combinado era que daria uma grande volta com o aparelho, e em duas horas retornaria, não desligaria a nave e assim outros pilotos se revezariam até o esgotamento de todo o combustível. Ele mesmo já havia realizado alguns testes preliminares. E assim foi deferido pelo comando aéreo, ele mesmo seria o primeiro aviador desse voo ininterrupto.
Entrou na aeronave. Ligou seus motores, suas têmporas estavam prestes a explodir. Manobrou na pista de forma suave e calma, levantou voo e subiu mais alto que qualquer caça poderia subir, e rumou a noroeste.
Ninguém percebeu a deserção até que, passadas duas horas, não havia sinal do aparelho. Superada a suspeita de um eventual acidente, o comando aéreo foi avisado, mas já era impossível para os caças da fronteira o abaterem. Era muito rápido e navegava em altitude muito alta.
Ele de fato pilotava com desenvoltura, pilotava bem até, era um de seus passatempos. Mas não era combatente. Já não tinha sequer idade para isso. Iniciava-se naquela época a carreira como piloto de caça muito antes. Nunca entrou em combate aéreo, ou qualquer outro tipo de combate. Mas lá em cima pensou no enorme risco que corria. A excitação era enorme. Pensava, com grande razão, que poucos homens na história tiveram papel tão importante num conflito como esse, que ele imaginava estar desempenhando naquele momento.
Após horas, ao chegar no espaço aéreo inglês, que já contava com um sistema de radar rudimentar, desceu a altitude possível para a escolta, e procurou algum aeródromo.
Não demorou muito e achou um. Caças ingleses surgiram. Baixou os trens de pouso, em sinal de rendição. Rezou para que não atirassem. O trem de pouso abaixado revelou bem sua intenção, e conseguiu pousar, escoltado pelos caças ingleses.
Aguardava ser bem recebido. Mas não o foi. Logo ao pousar, viaturas militares o aguardavam, e armas foram apontadas. Ficou de joelhos, braços erguidos e tentou explicar, com seu inglês perfeito, o que fizera e a máquina que trouxera.
Os oficiais ingleses o prenderam, ficaram muito surpresos e desconfiados, mas o trataram relativamente bem depois, apesar do enorme asco que tiveram. Um desertor curioso e estranho.
Ficou uns dois meses preso, quase que incomunicável, até que o comando inglês resolveu o fuzilar. Apesar da riqueza de detalhes que dera, dos projetos que trouxera, ainda era considerado um grande risco, e a figura de um desertor, em si considerada, era muito repugnante para a maioria dos homens daquele tempo. Para alguns de hoje também.
Preso, e sabendo que seria fuzilado, percebeu que havia se matado por causa de um olhar de uma criança. Percebeu que se matou por acreditar cegamente no princípio da igualdade de armas, coisa antiga e esquecida, coisa de garoto. Percebeu que se matou por que era solitário. Percebeu que se matou por conta das estórias da sua mãe, dos heróis antigos. Que se matou por ser diferente, por não ser como os homens deveriam ser. Percebeu que era de fato um grande bobalhão, o tolo que sempre fora alvo de chacotas quando criança. Sua grande inteligência e posição social nada eram. Normal ele sabia que nunca fora, suas paixões secretas já lhe sinalizavam isso. Pensou nas consequências para seu irmão, e em como aquilo acabaria de vez com a saúde e mesmo a vida dos seus pais, já bem velhos.
Percebeu que fora um grande erro e se arrependeu amargamente. E a ideia da morte o desesperou.
Jogou no lixo anos de aprendizado, de preparo. Toda sua cultura, seus princípios, sua vida, tudo jogado fora por causa de um olhar vazio de uma criança infeliz. Nada teria mudado o destino dela, e o que ele havia feito comprometeu gravemente o dele.
Percebeu a inevitabilidade do que aconteceria. Talvez a ilusória igualdade de armas não fomentasse o fim da guerra, talvez a prorrogasse. Vislumbrou que mortes aconteciam e que inevitavelmente continuariam a acontecer. Talvez os engenheiros ingleses não percebessem as sutilezas dos avanços da máquina. Percebeu que poderia ter continuado a sua vida, apesar da sua latente infelicidade.
No dia do seu fuzilamento, um oficial inglês lhe desdenhou pesadamente, disse que nada era mais infame do que um desertor. Um covarde desertor. Que um desertor não era homem. Um homem que trai seu país não era homem. Palavras duras já ouvidas em outras ocasiões.
Teve medo e arrependimento. Muito medo e um enorme arrependimento. Acreditou enormemente que no fundo ele era mesmo um idiota covarde e traidor.
Ao ser amarrado no poste, com um muro de concreto atrás de si, e com um grosso capuz de pano, seu coração disparou. Sua respiração era frenética. Naqueles momentos, suas têmporas pareciam que iam explodir. A excitação da espera do tiro fatal em seu peito era insuportável. Sua respiração estava acelerada,e o suor frio lhe escorria pela face, e as vertigens quase o fizeram desmaiar.
Nesse momento viu um menino pequeno vindo em sua direção, de mãos dadas a um sujeito que parecia um clérigo. Um clérigo sem definição. Parecia um monge de alguma época do passado. Mesmo encapuzado estava vendo, estava vendo com os olhos do espírito. Já estava, mesmo sem saber, quase desligado do seu corpo.
Sua respiração estava rápida, sua cabeça latejando em violenta pressão. Chorou. Ato entendido como um ato de covardia pelos seus executores, mas não era covardia. O menino que ele tinha visto no hospital, viera lhe buscar…
Seu pensamento estava correto. Poucos homens na história esqueceram de si por causa de um olhar de uma criança. Lembrados, nenhum.
Seu corpo ficou ali durante um bom tempo, até ser levado para uma vala simples num cemitério próximo, enquanto os engenheiros aliados já estavam a analisar seus projetos.
Sua atitude esquecida contribuiu para a derrota alemã, que demorou muito para ter um avião de alta performance. Seu irmão perdeu o comando do hospital e saiu da frente das pesquisas, afinal ser irmão de um traidor é uma grande mácula no currículo.
Seu nome foi riscado de qualquer registro, e nem nessa oportunidade de escrita foi possível saber seu nome.