Arquivo do mês: fevereiro 2015

Lixo humano

Um lixo humano. Sujo, esquecido, escondido num canto de praça.
Eu estava indo para uma audiência no Tribunal, mas estava muito adiantado e tive que aguardar. Por conta disso, resolvi andar na praça.

Não por compaixão, porque esse sentimento fraco eu não tenho. Não por vontade de ajudar, porque eu não ajudo a ninguém. Mas por conta da curiosidade e da necessidade de passar o tempo com alguma distração, fiquei vendo o lixo chorar.

Aproximei-me e mesmo sem pedir permissão, dada a sua loucura, ele começou a me contar a sua história.

Foi ele um homem. Casado e com um bom emprego. Tivera ele duas filhas, lindas, nas suas confusas palavras. Frequentavam a escola, e tinham boa vida.
Contudo, suas meninas tiveram estranha doença, que lhes consumiu a juventude. Cruel porque demoraram a falecer. Cruel porque muitos médicos erraram seus diagnósticos. Cruel porque ele, impotente, só olhava o seu definhar, gastando seus modestos recursos sem lograr efeito algum. Contraiu dívidas para custear tratamentos, mas tudo inútil.

Perdeu seu emprego por conta da tristeza, e sua mulher por conta da miséria.

Sua mãe e seus irmãos nada fizeram, moravam longe. Foi morar naquela praça. Comia o que lhe davam e o que achava. Não tomava banho, só de vez em quando no abrigo da prefeitura, que de tempos em tempos fechava, e dormia ao lado de uma árvore.
Ele disse os nomes de suas filhas, Débora e Vanessa. Ele disse que jamais esqueceria esses nomes, apesar de ter esquecido o próprio, pela fome, doença e pelo passar do tempo.

Eu também tenho duas filhas. E nesse momento parei e o fitei por longo tempo. Aquele monte de lixo, fedendo a urina, que se esquecera do próprio nome, lembrava e disse que sempre se lembraria dos nomes das suas duas falecidas menininhas.

Eu vejo as minhas filhas uma vez por mês, e confundo os seus nomes com frequência… Na verdade sequer me importo se estão bem ou não… Mesmo antes de minha separação já não ligava muito para as duas.

Atravessei a rua, comprei um litro de cachaça e a dei para aquele monte de lixo. Talvez a cachaça lhe aliviasse a mente. Não por compaixão, não por vontade de ajudar, mas por reconhecer naquele monte de lixo um homem, um homem que perdeu tudo, talvez em alguma medida melhor do que eu, porque ele lembra os nomes das filhas mortas, e eu mal lembro dos nomes das minhas.

Nem por isso resolvi falar com minhas filhas. Nem por isso tive compaixão. Nem por isso amoleci. A um homem como eu não é dado amolecer, isso é para os fracos. Meu deus é o dinheiro, e é dele que extraio minha felicidade.

Não falei de Jesus, pois está provado que ele não existiu, que foi um amalgama de crenças antigas que justificou a permanência do império romano. Não falei de Deus por que um grande cientista já demonstrou com toda a matemática que ele não existe, que pelos princípios da física quântica a matéria surge do nada mesmo.

Apenas lhe comprei uma garrafa de cachaça, na esperança de que um dia, se/ou quando eu perder tudo que tenho, deixar de ser o profissional de sucesso que sou, deixar de ter o patrimônio que tenho, eu possa merecer ao menos uma dose de cachaça para aliviar a minha mente. Se é que terei alguma dor, pois só tem dor quem tem alma, e eu definitivamente não tenho.

Vereor Nox