Arquivo do dia: 23/12/2018

O bandido

Fui um homem ruim, sempre fui um ladrão. No fundo da minha alma, é isso que eu sou. E vou contar como foi minha vida… Desde pequeno já realizava pequenos roubos. Eu fui uma criança pobre, pouco educada e bem malcriada. E no inicio da minha vida adulto-juvenil eu testemunhei um massacre. Sim, uma situação terrível, que no entanto, não me afetou como deveria afetar, ou afetou de forma diferente do que afetaria qualquer outra pessoa…

Eu era jovem, não tinha a menor idéia do que era certo ou errado. E também nunca questionei as razões ou qualquer coisa que o valha em relação ao que aconteceu, e na época sinceramente sequer me importava.

Fui colocado, praticamente sem sentir ou escolher, no exército, lugar comum para a maioria esmagadora de jovens pobres como eu naquela época. E mesmo dentro do exército, fui também colocado para trabalhar numa fábrica.

E assim foi o começo dos meus anos. A grande agitação e a posterior guerra se seguiu logo depois. E o único lugar para um jovem pobre como eu era o exército ou a lavoura… como eu vivia na cidade, e a necessidade era grande, fui para o exército, e depois cedido para uma companhia industrial.

Fiquei trabalhando numa fábrica até compor uma linha de soldados e oficiais que era a responsável por limpar determinadas vilas no interior da Polônia ocupada.
Pelo que pude compreender na ocasião, e isso não foi bem esclarecido, os residentes tinham que sair de lá mas não havia aonde os colocar.
Eram gente pobre e sem nenhuma serventia, pelo que justificavam, não havia muito recursos para compartilhar, e essa definitivamente não seria a idéia, e as ordens superiores foram cavar uma cova comum bem grande e os enterrar lá, desperdiçando o mínimo possível de munição.

E foi nesse contexto que eu vi, dentre outras inúmeras imagens fortes, a imagem que consolidou na minha alma o desejo de ser o ladrão, bandido e anarquista que eu sou e sempre serei.

Jamais vou me curvar a qualquer governo constituído depois do que eu vi. Uma mãe abraçada na sua filha pequena esperando o disparo na sua cabeça. Estavam na fila, chorando, esperando a sua vez. Quando ficaram paradas na frente do seu destino final, pude ver como aquela mulher pobre, sofrida, acabada e miserável, amava profundamente a sua filhinha, uma criança esquálida, de uns três ou quatro anos, chorando sem nada entender. Aquele abraço tão cheio de amor não poderia jamais ter sido desperdiçado da forma como o foi, segundos antes de uma bala ter tirado a vida de ambas. Eu mesmo nunca recebi um abraço como aquele.

Sem nome e esquecidas numa vala comum, perdida no tempo. Esquecidas por deus também. Só vivem hoje na minha memória. Não as procurei no astral. Eu não as acharia de qualquer forma.

Da nada adiantou chorar, balbuciar, ou implorar… morreram como cães doentes. Um ser humano não devia nunca ser obrigado a implorar e chorar pela sua vida daquela forma, e eu participei daquilo… Fiquei ali olhando meus colegas no seu serviço.

Nossos grandes generais e políticos determinaram o seu fim, daquele jeito.

Mulheres, crianças, homens… todos.

Aquela imagem me persegue até hoje, e mesmo que eu tenha mil vidas, mesmo que eu tenha mil personalidades, mesmo que eu tenha mil vezes a chance de esquecer, eu não as esqueceria… graças a elas hoje eu não tenho amarras, não sirvo a ninguém e não me importo com nada.

Eu vi, e não fiz nada, só observei o que aconteceu.

Não combati diretamente, para minha sorte eu acabava sempre ficando na retaguarda. Bom… também ajudou um pouco a minha esperteza e lábia ao ficar doente às vezes… De qualquer forma, sobrevivi e acompanhei toda a reconstrução do meu pais, depois do conflito. Acompanhei toda a desgraça de um sem número de pessoas, toda a pobreza e os abusos que se seguem a quem não tem nada. Percebi que se sofre abusos do inimigo e dos próprios compatriotas. Se sofre abusos de gente que deveria te ajudar. Percebi que não importa de onde ou de quem, se você está em uma situação de fragilidade, o que você vai sofrer são abusos e mais abusos. As benesses são para os vencedores, e mesmo o lado perdedor possui seus vencedores, os que vão se beneficiar da reconstrução e das benesses alheias. Para os órfãos, pobres e desgarrados como eu, sobrava apenas o cruel destino aleatório das coisas.

Depois da guerra eu me tornei o que há de pior. Matei, roubei, chefiei uma quadrilha que fazia todo tipo de sujeira na Europa, mas nada me dava mais prazer do que matar. Não a qualquer um obviamente, mas alvos abonados, gente rica e influente. Gente protegida.

Roubar suas propriedades, tirar tudo o que eles tinham, inclusive as suas vidas. Nenhum prazer superava o prazer de matar um homem rico, não sem antes de o obrigar a ajoelhar e a implorar pela sua vida.

Como era prazeroso os ver ajoelhados, chorando e balbuciando como aquela garotinha… ah… velhacos que enriqueceram a custa do sofrimento e servidão de pessoas como aquelas que eu ajudei a matar… ah…. Que delícia proporcionar a vingança do tempo.

Eu era particularmente muito bom no que fazia. Meses de planejamento, muito cuidado… assaltar e matar gente poderosa nunca é fácil, por isso que meus serviços eram dispendiosos. Eu era um assassino profissional, um dos mais bem pagos na Europa, e, muito embora o dinheiro fosse sempre bem vindo (e depois bem gasto), e isso eu não vou negar, sempre havia um quê de vingança pessoal nas minhas ações… e era exatamente isso o que me fazia tão bom.

Eu odeio do fundo da minha alma qualquer sentido de hierarquia, odeio do fundo da minha alma qualquer sentido de superioridade que um homem possa ter sobre outro homem… Então, se o trabalho consiste em limpar um pouco a terra, por que não?

Meus empregadores via de regra eram mafiosos e gente influente, não valiam nada como pessoas, e me contratavam para matar gente como eles… eu não tinha muito o sentido de lealdade, muito embora fosse fiel ao meu contratante…. Mas isso não impedia que eu fosse contratado, noutro tempo posterior, por outro calhorda, para dar cabo do meu patrão antecessor… bem por isso eu possuía diversas identidades, e possuía também um bom número de contatos. Também mudava minha aparência ao cabo de um serviço. Houve tempo que se acreditava haver uma dúzia de matadores, quando na verdade era apenas eu. Amealhei uma fortuna, salpicada aqui e alí, em vários pontos, e deixei atrás de mim um monte de gente morta, mas não se espante, todos mereceram o fim que tiveram.

Sim, fiquei rico. Acabei por aproveitar a vida também, mas com muito trabalho. Matar e roubar é um trabalho também… Não é assim considerado quando se está amparo por uma lei ou organização? Por que seria diferente quando se age sozinho?

Matava por dinheiro, mas matei também por vontade de matar, e matei também para trazer um pouco de justiça poética para o mundo… me lembro especialmente de um… era filho de um homem muito poderoso, que contratava meus serviços com certa regularidade. Esse rapaz teve de tudo nessa vida, boa educação, cuidados na infância, tudo para ser um homem de bem… no entanto, desde adolescente adorava violentar jovens meninas em hotéis de propriedade da sua família, geralmente instalados com cassinos, eram moças aliciadas com propostas de emprego e tudo o mais… quando tive ciência do que acontecia, e conheci uma das vítimas, sabendo da sua história e vendo como ela me lembrava a mãe que implorou pela vida, tratei de o matar com a minha Luger favorita (ah, eu adorava o estilo civilizado do tranco da Luger), numa estrada sinuosa a caminho do seu cassino. O matei e matei também os dois seguranças que eu mesmo havia ajudado a contratar. Os matei e tratei de espalhar a ideia que seriam alguns adversários políticos os responsáveis… Divertido, não? Mais divertido ainda foi ver o seu rosto incrédulo quando eu atirei no meio da sua testa. E aquilo foi especialmente lucrativo, pois desse ato ainda fui contratado para dar cabo de mais um monte de gente. Nada como aliar prazer ao trabalho… melhor ainda se nos sentimos autorizados moralmente a fazer aquilo que gostamos.

Um outro alvo que eu gostei muito de ter matado foi um sujeito da igreja. De sacerdote mesmo ele não tinha nada, um absurdo um homem como ele falar do cordeiro de deus e fazer o que fazia. Ele controlava os negócios da sua família e fazia mais sexo do que muitos donos de lupanares. Ele gostava especialmente de jovens meninos, os trazia das mais variadas regiões pobres do mundo. Quando fiquei sabendo de suas taras, e de como conseguia drogas ilegais para fomentar ereções em crianças, meu desejo de morte despertou…
Planejei por um bom tempo sua morte, escolhi como local uma propriedade que ele possuía, afastada, aonde ele descansava com frequência. Sempre gostei da preparação do golpe. A preparação é a alma do negócio, é na preparação que um mestre mostra todo o seu talento… a consecução da obra é apenas a consequencia lógica. Uma preparação perfeita te permite relaxar e até pensar em tomar um cafezinho no decorrer da ação. Nada te surpreende se você conhece os alvos, o terreno e como agir.

Eu o matei de uma forma bem imprópria, bem humilhante, e depois vendi meus serviços para a sua família de mafiosos. Lucrei muito com eles.

Perceba que um mafioso está sempre desconfiado de alguém, logo, é relativamente fácil incutir na sua cabeça que há inimigos por toda a parte. Uma vida de maldades também significa uma vida cheia de temores, e estar cheio de temores não te faz pensar direito, não quando o assunto é avaliar seus aliados e adversários.

Toda ação tem de ser pensada, planejada, e eu sempre calculava muito bem a fuga, em diversos lugares eu possuía veículos e quartos alugados, com as mais diferentes identidades… eu desaparecia e surgia quando convinha.

Eventualmente eu tinha ajuda, conhecia alguns assaltantes e meliantes que as vezes eram úteis… mas a dizer que tinha amigos, vai uma distância. Minha vida, infelizmente, era solitária, e para diminuir esse sentimento, eu tinha uma identidade especial que assumia de vez em quando, quando queria tirar umas férias, e no contexto dessa identidade eu me relacionava com pessoas, tinha até uma namorada que imaginava meus sumiços como “trabalhos internacionais”.

Quer saber algo bem curioso, e que sempre me deixava perplexo? Era o fato de alguns governos me procurarem, para alguns trabalhos. Incrível como andar nas sombras pode ser versátil e conveniente. O mais engraçado era ouvir as justificativas éticas e ideológicas desses agentes que me procuravam. Além de eu não me importar nem um pouco, percebia de cara como eram cretinos e hipócritas… Mas quem era eu para recusar um bom trabalho?

Me lembro de ter reconhecido um agente aposentado, que havia me contratado em nome do seu governo anos antes. O matei na frente da esposa, o fiz implorar pela vida como um cachorro sarnento. E usei os mesmos meios que ele havia solicitado contra o alvo na ocasião que me contratou. Esse eu matei porque desejei mesmo. O alvo dele havia sido um empresário que, algum tempo depois, descobri que mantinha serviços de caridade e alguns orfanatos… apesar dos pesares, ele fazia algo de bom, algo que eu nunca observava. Ganhar dinheiro é uma coisa, eliminar gente ruim é outra, mas afetar quem não pode se defender é outra bem diferente. Como eu não acreditava na divina providência, tratei eu mesmo de providenciar a reparação devida.

Se eu tenho arrependimentos? talvez esse empresário conte como um….

Passei meus dias nas sombras, e me vendia a qualquer preço, mas desde que com isso eu pudesse cumprir com meu propósito de perseguir quem é feliz as custas do sofrimento de outras pessoas. Se eu já fui contratado para matar gente honesta? Ora, gente honesta não se envolve com bandido. Gente honesta não protege bandido, gente honesta não guarda dinheiro de bandido, e se o faz para um em detrimento de outro, por mim, merece sofrer tanto quanto. No decorrer da observação dos meus alvos eu sempre percebia que, no fundo, e pela posição que ocupavam, mereciam ser meus alvos. Claro, houve a exceção daquele empresário… por isso o vinguei. Mas se não tivesse sido morto pelas minhas mãos, outro teria feito o serviço.

Como disse, eu era muito bom em invadir propriedades, sequestrar e extorquir.
Eu não temia políticos, autoridades ou quem quer que fosse. Obviamente, pelos meus talentos, eu não era contratado para matar qualquer um. Não temia e, como disse, até matei gente da igreja. Para mim, não passavam de usurpadores, cujos assassinatos era encomendados por outros usurpadores da mesma laia.

Fiquei muito bom também em roubar qualquer tipo de coisa, e invadir qualquer lugar, por mais bem guardado que fosse. Aliás, se sentir bem guardado é sempre uma ilusão. Nenhuma defesa resiste a alguém obstinado. Seus guardas irão te vender por um bom preço, e você, por mais rico que possa ser, não vai comprar lealdade apenas com dinheiro… Não meu caro…. Lealdade não se compra com dinheiro, e muitos dos que eu matei só perceberam isso quando estavam prestes a morrer.

Insígnias, postos, cargos, patentes, partidos, nada mais são do que elementos de submissão de um homem a outro. Não há ideologia ou princípios reais, o que eu vi na vida foi apenas a sórdida busca pelo poder, com diferentes roupagens de ideais.

Vivi o resto dos meus dias sendo uma sombra. Roubei, sequestrei, pilhei e matei em toda a Europa depois da guerra. Como disse, fui muito bem recebido e bem sucedido nas máfias instaladas na Italia e França no pós guerra. Alguém com experiência militar e desejo de matar é sempre útil. E morri como tal. Não tenho mágoa desse evento porque ele era esperado, mais dia ou menos dia eu seria morto em decorrência do que eu fazia, fui morto já com certa idade, inclusive… é até poético e justo morrer como se viveu.

Um belo dia um cretino me descobriu, me conhecendo de um trabalho anterior, e para se afirmar nesse mercado negro, acabou comigo. Até que demorou muito…

Se eu acredito em deus? Ora, como acreditar num ser que permite que uma mãe e uma filha se ajoelhem e implorem pela vida, balbuciando palavras desesperadas para cães raivosos como um dia eu fui? Como? Que pai é esse? Vai me dizer o quê? Mesmo morto eu não enxergo ordem nesse caos… que deus é esse que me fez assim?

Mesmo nesse lado da vida o que eu vejo é maldade, orgulho e vaidade. Vejo gente podre se fazendo de santos. Aqui e aí são, na verdade, o mesmo lugar, vocês é que acham que se tratam de mundos ou dimensões diferentes. Me consorciei a alguns outros que, como eu, não seguem dogmas… formamos o que pode ser definido como uma “empresa de cobrança”.

Que coisa curiosa afinal… estou me comunicando com pessoas tão distantes de mim no tempo e no espaço, que sequer podem compreender o que vivi. Para me entender, seria necessário ver e sentir coisas que vocês nem sonham. Teriam que ver a violência e o desprezo de um ser humano por outro num alto grau. Num grau infernal. Melhor vocês continuarem suas vidinhas nessa ignorância abençoada. Mas não se enganem: muitos representantes do “senhor”, de várias religiões, são, na verdade, poços sem fundo de vaidade e arrogância.

E cuidado com os seus tostões… Principalmente se esse tostão veio da lágrima de alguém… não reclame da sorte depois, nem blasfeme contra a providência… você nunca será uma boa pessoa de verdade, ou merecerá algo de bom, se usufruir valores banhados nas lágrimas de alguém. Eu melhor que ninguém sei disso, mas eu aceito o que o inferno tem para mim… E estarei lá, eu vou desejar estar lá, pra te ver Sofrer.

Não me julgue, você não possui esse direito e nem condições de o fazer. Apenas saiba que eu enxergo exatamente quem você é, e o que você deseja.

Quanto a você, escritor, diga a seus leitores (se é que você tem algum) que as trevas são maiores e mais influentes na vida mundana do que eles imaginam, e que não basta se esconder atrás de uma organização religiosa qualquer para limpar a sujeira da alma, não basta ficar falando… palavras são vazias e não salvam ninguém. Diga que eles não serão julgados por deus, mas por nós, e que conhecemos muito bem a alma humana e as suas vaidades. E adoramos brincar com calhordas que se sentem protegidos e abençoados.

Vereor Nox