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O bandido

Fui um homem ruim, sempre fui um ladrão. No fundo da minha alma, é isso que eu sou. E vou contar como foi minha vida… Desde pequeno já realizava pequenos roubos. Eu fui uma criança pobre, pouco educada e bem malcriada. E no inicio da minha vida adulto-juvenil eu testemunhei um massacre. Sim, uma situação terrível, que no entanto, não me afetou como deveria afetar, ou afetou de forma diferente do que afetaria qualquer outra pessoa…

Eu era jovem, não tinha a menor idéia do que era certo ou errado. E também nunca questionei as razões ou qualquer coisa que o valha em relação ao que aconteceu, e na época sinceramente sequer me importava.

Fui colocado, praticamente sem sentir ou escolher, no exército, lugar comum para a maioria esmagadora de jovens pobres como eu naquela época. E mesmo dentro do exército, fui também colocado para trabalhar numa fábrica.

E assim foi o começo dos meus anos. A grande agitação e a posterior guerra se seguiu logo depois. E o único lugar para um jovem pobre como eu era o exército ou a lavoura… como eu vivia na cidade, e a necessidade era grande, fui para o exército, e depois cedido para uma companhia industrial.

Fiquei trabalhando numa fábrica até compor uma linha de soldados e oficiais que era a responsável por limpar determinadas vilas no interior da Polônia ocupada.
Pelo que pude compreender na ocasião, e isso não foi bem esclarecido, os residentes tinham que sair de lá mas não havia aonde os colocar.
Eram gente pobre e sem nenhuma serventia, pelo que justificavam, não havia muito recursos para compartilhar, e essa definitivamente não seria a idéia, e as ordens superiores foram cavar uma cova comum bem grande e os enterrar lá, desperdiçando o mínimo possível de munição.

E foi nesse contexto que eu vi, dentre outras inúmeras imagens fortes, a imagem que consolidou na minha alma o desejo de ser o ladrão, bandido e anarquista que eu sou e sempre serei.

Jamais vou me curvar a qualquer governo constituído depois do que eu vi. Uma mãe abraçada na sua filha pequena esperando o disparo na sua cabeça. Estavam na fila, chorando, esperando a sua vez. Quando ficaram paradas na frente do seu destino final, pude ver como aquela mulher pobre, sofrida, acabada e miserável, amava profundamente a sua filhinha, uma criança esquálida, de uns três ou quatro anos, chorando sem nada entender. Aquele abraço tão cheio de amor não poderia jamais ter sido desperdiçado da forma como o foi, segundos antes de uma bala ter tirado a vida de ambas. Eu mesmo nunca recebi um abraço como aquele.

Sem nome e esquecidas numa vala comum, perdida no tempo. Esquecidas por deus também. Só vivem hoje na minha memória. Não as procurei no astral. Eu não as acharia de qualquer forma.

Da nada adiantou chorar, balbuciar, ou implorar… morreram como cães doentes. Um ser humano não devia nunca ser obrigado a implorar e chorar pela sua vida daquela forma, e eu participei daquilo… Fiquei ali olhando meus colegas no seu serviço.

Nossos grandes generais e políticos determinaram o seu fim, daquele jeito.

Mulheres, crianças, homens… todos.

Aquela imagem me persegue até hoje, e mesmo que eu tenha mil vidas, mesmo que eu tenha mil personalidades, mesmo que eu tenha mil vezes a chance de esquecer, eu não as esqueceria… graças a elas hoje eu não tenho amarras, não sirvo a ninguém e não me importo com nada.

Eu vi, e não fiz nada, só observei o que aconteceu.

Não combati diretamente, para minha sorte eu acabava sempre ficando na retaguarda. Bom… também ajudou um pouco a minha esperteza e lábia ao ficar doente às vezes… De qualquer forma, sobrevivi e acompanhei toda a reconstrução do meu pais, depois do conflito. Acompanhei toda a desgraça de um sem número de pessoas, toda a pobreza e os abusos que se seguem a quem não tem nada. Percebi que se sofre abusos do inimigo e dos próprios compatriotas. Se sofre abusos de gente que deveria te ajudar. Percebi que não importa de onde ou de quem, se você está em uma situação de fragilidade, o que você vai sofrer são abusos e mais abusos. As benesses são para os vencedores, e mesmo o lado perdedor possui seus vencedores, os que vão se beneficiar da reconstrução e das benesses alheias. Para os órfãos, pobres e desgarrados como eu, sobrava apenas o cruel destino aleatório das coisas.

Depois da guerra eu me tornei o que há de pior. Matei, roubei, chefiei uma quadrilha que fazia todo tipo de sujeira na Europa, mas nada me dava mais prazer do que matar. Não a qualquer um obviamente, mas alvos abonados, gente rica e influente. Gente protegida.

Roubar suas propriedades, tirar tudo o que eles tinham, inclusive as suas vidas. Nenhum prazer superava o prazer de matar um homem rico, não sem antes de o obrigar a ajoelhar e a implorar pela sua vida.

Como era prazeroso os ver ajoelhados, chorando e balbuciando como aquela garotinha… ah… velhacos que enriqueceram a custa do sofrimento e servidão de pessoas como aquelas que eu ajudei a matar… ah…. Que delícia proporcionar a vingança do tempo.

Eu era particularmente muito bom no que fazia. Meses de planejamento, muito cuidado… assaltar e matar gente poderosa nunca é fácil, por isso que meus serviços eram dispendiosos. Eu era um assassino profissional, um dos mais bem pagos na Europa, e, muito embora o dinheiro fosse sempre bem vindo (e depois bem gasto), e isso eu não vou negar, sempre havia um quê de vingança pessoal nas minhas ações… e era exatamente isso o que me fazia tão bom.

Eu odeio do fundo da minha alma qualquer sentido de hierarquia, odeio do fundo da minha alma qualquer sentido de superioridade que um homem possa ter sobre outro homem… Então, se o trabalho consiste em limpar um pouco a terra, por que não?

Meus empregadores via de regra eram mafiosos e gente influente, não valiam nada como pessoas, e me contratavam para matar gente como eles… eu não tinha muito o sentido de lealdade, muito embora fosse fiel ao meu contratante…. Mas isso não impedia que eu fosse contratado, noutro tempo posterior, por outro calhorda, para dar cabo do meu patrão antecessor… bem por isso eu possuía diversas identidades, e possuía também um bom número de contatos. Também mudava minha aparência ao cabo de um serviço. Houve tempo que se acreditava haver uma dúzia de matadores, quando na verdade era apenas eu. Amealhei uma fortuna, salpicada aqui e alí, em vários pontos, e deixei atrás de mim um monte de gente morta, mas não se espante, todos mereceram o fim que tiveram.

Sim, fiquei rico. Acabei por aproveitar a vida também, mas com muito trabalho. Matar e roubar é um trabalho também… Não é assim considerado quando se está amparo por uma lei ou organização? Por que seria diferente quando se age sozinho?

Matava por dinheiro, mas matei também por vontade de matar, e matei também para trazer um pouco de justiça poética para o mundo… me lembro especialmente de um… era filho de um homem muito poderoso, que contratava meus serviços com certa regularidade. Esse rapaz teve de tudo nessa vida, boa educação, cuidados na infância, tudo para ser um homem de bem… no entanto, desde adolescente adorava violentar jovens meninas em hotéis de propriedade da sua família, geralmente instalados com cassinos, eram moças aliciadas com propostas de emprego e tudo o mais… quando tive ciência do que acontecia, e conheci uma das vítimas, sabendo da sua história e vendo como ela me lembrava a mãe que implorou pela vida, tratei de o matar com a minha Luger favorita (ah, eu adorava o estilo civilizado do tranco da Luger), numa estrada sinuosa a caminho do seu cassino. O matei e matei também os dois seguranças que eu mesmo havia ajudado a contratar. Os matei e tratei de espalhar a ideia que seriam alguns adversários políticos os responsáveis… Divertido, não? Mais divertido ainda foi ver o seu rosto incrédulo quando eu atirei no meio da sua testa. E aquilo foi especialmente lucrativo, pois desse ato ainda fui contratado para dar cabo de mais um monte de gente. Nada como aliar prazer ao trabalho… melhor ainda se nos sentimos autorizados moralmente a fazer aquilo que gostamos.

Um outro alvo que eu gostei muito de ter matado foi um sujeito da igreja. De sacerdote mesmo ele não tinha nada, um absurdo um homem como ele falar do cordeiro de deus e fazer o que fazia. Ele controlava os negócios da sua família e fazia mais sexo do que muitos donos de lupanares. Ele gostava especialmente de jovens meninos, os trazia das mais variadas regiões pobres do mundo. Quando fiquei sabendo de suas taras, e de como conseguia drogas ilegais para fomentar ereções em crianças, meu desejo de morte despertou…
Planejei por um bom tempo sua morte, escolhi como local uma propriedade que ele possuía, afastada, aonde ele descansava com frequência. Sempre gostei da preparação do golpe. A preparação é a alma do negócio, é na preparação que um mestre mostra todo o seu talento… a consecução da obra é apenas a consequencia lógica. Uma preparação perfeita te permite relaxar e até pensar em tomar um cafezinho no decorrer da ação. Nada te surpreende se você conhece os alvos, o terreno e como agir.

Eu o matei de uma forma bem imprópria, bem humilhante, e depois vendi meus serviços para a sua família de mafiosos. Lucrei muito com eles.

Perceba que um mafioso está sempre desconfiado de alguém, logo, é relativamente fácil incutir na sua cabeça que há inimigos por toda a parte. Uma vida de maldades também significa uma vida cheia de temores, e estar cheio de temores não te faz pensar direito, não quando o assunto é avaliar seus aliados e adversários.

Toda ação tem de ser pensada, planejada, e eu sempre calculava muito bem a fuga, em diversos lugares eu possuía veículos e quartos alugados, com as mais diferentes identidades… eu desaparecia e surgia quando convinha.

Eventualmente eu tinha ajuda, conhecia alguns assaltantes e meliantes que as vezes eram úteis… mas a dizer que tinha amigos, vai uma distância. Minha vida, infelizmente, era solitária, e para diminuir esse sentimento, eu tinha uma identidade especial que assumia de vez em quando, quando queria tirar umas férias, e no contexto dessa identidade eu me relacionava com pessoas, tinha até uma namorada que imaginava meus sumiços como “trabalhos internacionais”.

Quer saber algo bem curioso, e que sempre me deixava perplexo? Era o fato de alguns governos me procurarem, para alguns trabalhos. Incrível como andar nas sombras pode ser versátil e conveniente. O mais engraçado era ouvir as justificativas éticas e ideológicas desses agentes que me procuravam. Além de eu não me importar nem um pouco, percebia de cara como eram cretinos e hipócritas… Mas quem era eu para recusar um bom trabalho?

Me lembro de ter reconhecido um agente aposentado, que havia me contratado em nome do seu governo anos antes. O matei na frente da esposa, o fiz implorar pela vida como um cachorro sarnento. E usei os mesmos meios que ele havia solicitado contra o alvo na ocasião que me contratou. Esse eu matei porque desejei mesmo. O alvo dele havia sido um empresário que, algum tempo depois, descobri que mantinha serviços de caridade e alguns orfanatos… apesar dos pesares, ele fazia algo de bom, algo que eu nunca observava. Ganhar dinheiro é uma coisa, eliminar gente ruim é outra, mas afetar quem não pode se defender é outra bem diferente. Como eu não acreditava na divina providência, tratei eu mesmo de providenciar a reparação devida.

Se eu tenho arrependimentos? talvez esse empresário conte como um….

Passei meus dias nas sombras, e me vendia a qualquer preço, mas desde que com isso eu pudesse cumprir com meu propósito de perseguir quem é feliz as custas do sofrimento de outras pessoas. Se eu já fui contratado para matar gente honesta? Ora, gente honesta não se envolve com bandido. Gente honesta não protege bandido, gente honesta não guarda dinheiro de bandido, e se o faz para um em detrimento de outro, por mim, merece sofrer tanto quanto. No decorrer da observação dos meus alvos eu sempre percebia que, no fundo, e pela posição que ocupavam, mereciam ser meus alvos. Claro, houve a exceção daquele empresário… por isso o vinguei. Mas se não tivesse sido morto pelas minhas mãos, outro teria feito o serviço.

Como disse, eu era muito bom em invadir propriedades, sequestrar e extorquir.
Eu não temia políticos, autoridades ou quem quer que fosse. Obviamente, pelos meus talentos, eu não era contratado para matar qualquer um. Não temia e, como disse, até matei gente da igreja. Para mim, não passavam de usurpadores, cujos assassinatos era encomendados por outros usurpadores da mesma laia.

Fiquei muito bom também em roubar qualquer tipo de coisa, e invadir qualquer lugar, por mais bem guardado que fosse. Aliás, se sentir bem guardado é sempre uma ilusão. Nenhuma defesa resiste a alguém obstinado. Seus guardas irão te vender por um bom preço, e você, por mais rico que possa ser, não vai comprar lealdade apenas com dinheiro… Não meu caro…. Lealdade não se compra com dinheiro, e muitos dos que eu matei só perceberam isso quando estavam prestes a morrer.

Insígnias, postos, cargos, patentes, partidos, nada mais são do que elementos de submissão de um homem a outro. Não há ideologia ou princípios reais, o que eu vi na vida foi apenas a sórdida busca pelo poder, com diferentes roupagens de ideais.

Vivi o resto dos meus dias sendo uma sombra. Roubei, sequestrei, pilhei e matei em toda a Europa depois da guerra. Como disse, fui muito bem recebido e bem sucedido nas máfias instaladas na Italia e França no pós guerra. Alguém com experiência militar e desejo de matar é sempre útil. E morri como tal. Não tenho mágoa desse evento porque ele era esperado, mais dia ou menos dia eu seria morto em decorrência do que eu fazia, fui morto já com certa idade, inclusive… é até poético e justo morrer como se viveu.

Um belo dia um cretino me descobriu, me conhecendo de um trabalho anterior, e para se afirmar nesse mercado negro, acabou comigo. Até que demorou muito…

Se eu acredito em deus? Ora, como acreditar num ser que permite que uma mãe e uma filha se ajoelhem e implorem pela vida, balbuciando palavras desesperadas para cães raivosos como um dia eu fui? Como? Que pai é esse? Vai me dizer o quê? Mesmo morto eu não enxergo ordem nesse caos… que deus é esse que me fez assim?

Mesmo nesse lado da vida o que eu vejo é maldade, orgulho e vaidade. Vejo gente podre se fazendo de santos. Aqui e aí são, na verdade, o mesmo lugar, vocês é que acham que se tratam de mundos ou dimensões diferentes. Me consorciei a alguns outros que, como eu, não seguem dogmas… formamos o que pode ser definido como uma “empresa de cobrança”.

Que coisa curiosa afinal… estou me comunicando com pessoas tão distantes de mim no tempo e no espaço, que sequer podem compreender o que vivi. Para me entender, seria necessário ver e sentir coisas que vocês nem sonham. Teriam que ver a violência e o desprezo de um ser humano por outro num alto grau. Num grau infernal. Melhor vocês continuarem suas vidinhas nessa ignorância abençoada. Mas não se enganem: muitos representantes do “senhor”, de várias religiões, são, na verdade, poços sem fundo de vaidade e arrogância.

E cuidado com os seus tostões… Principalmente se esse tostão veio da lágrima de alguém… não reclame da sorte depois, nem blasfeme contra a providência… você nunca será uma boa pessoa de verdade, ou merecerá algo de bom, se usufruir valores banhados nas lágrimas de alguém. Eu melhor que ninguém sei disso, mas eu aceito o que o inferno tem para mim… E estarei lá, eu vou desejar estar lá, pra te ver Sofrer.

Não me julgue, você não possui esse direito e nem condições de o fazer. Apenas saiba que eu enxergo exatamente quem você é, e o que você deseja.

Quanto a você, escritor, diga a seus leitores (se é que você tem algum) que as trevas são maiores e mais influentes na vida mundana do que eles imaginam, e que não basta se esconder atrás de uma organização religiosa qualquer para limpar a sujeira da alma, não basta ficar falando… palavras são vazias e não salvam ninguém. Diga que eles não serão julgados por deus, mas por nós, e que conhecemos muito bem a alma humana e as suas vaidades. E adoramos brincar com calhordas que se sentem protegidos e abençoados.

Vereor Nox


O Caos

As vezes tenho a forte sensação que o universo é regido pelo caos, apenas.

Somos um princípio de inteligência que surgiu e vaga sem destino, e ainda que exista de fato uma vida espiritual, algo além da realidade física que conhecemos, esse hipotético plano deve ser tão caótico quanto o mundo que nos cerca.

Penso que a tônica do universo seja o mais forte oprimir o mais fraco, que a vida se estrutura numa enorme pirâmide aonde o topo oprime e controla a base. E não há fuga dessa ordem. Talvez por conta disso quem detém o poder (e não sofre controle) tende a agir como um ditador cruel, guiado apenas pelas suas necessidades e prazeres. Talvez por conta disso o egoísmo aflora cedo, desde a mais tenra idade. Talvez o egoísmo seja o sentimento natural por excelência, um instinto de preservação.

Nesse contexto vislumbro o Cristianismo como uma ideia eventualmente nova e na contramão do universo. Penso que a mente que o criou vislumbrou uma realidade aonde a opressão possa dar lugar à paz e ao conforto de todos, um futuro aonde o forte não explora o mais fraco, mas é por ele bem servido e de bom grado, grato pela sua proteção e preocupação.

Penso que o Cristianismo foi uma grande evolução do pensamento, e que talvez seja o Cristo o anjo caído, pois era forte e não necessitava se importar com os mais fracos, desceu de sua posição para ensinar a nós (e a outros, talvez tão ou mais poderosos que ele) que uma nova forma de organização política poderia vingar no universo. Uma nova forma de organização política, muito mais eficiente, estável e lucrativa, tanto para quem está no poder como para quem sofre o poder. Não mais baseada no uso natural de um pelo outro, mas baseada na cooperação.

Nessa minha particular visão do universo vejo Cristo como uma revolução, cuja atuação foi profunda para a humanidade e para algo mais além dela, para outros seres antigos do universo que consolidaram seu poder no caos. Nesse ponto, sua figura se transveste de fortes cores, como um herói que de fato merece nossa gratidão e confiança. Pois ele, e mais ninguém, se importou de fato com os mais fracos.

Fracos que somos (entendido o ser humano como um animal que a pouco na sua história evolutiva aprendeu a controlar o fogo e a eletricidade, e que não compreende uma gama enorme de forças da natureza) tenho que a concepção política que conhecemos como Cristianismo é a única coisa que nos separa da escravidão eterna por seres muito mais fortes e sábios que nós.

Talvez seja esse o sentido do “eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

Na minha particular visão do universo deus não existe, a criação se deu no caos original, talvez até o próprio Cristo não tenha existido. Porém, nessa mesma linha percebo que as ideias por detrás do Cristianismo, que fomentam a igualdade, a liberdade e a fraternidade, são a mais pura evolução conceitual política, e a única garantia que seres mais poderosos que nós, demônios antigos, sábios e egoístas, possam nos deixar evoluir, ao compreenderem que é melhor cooperar e lucrar do que conquistar e escravizar. Cristo pode não ter existido, pode eventualmente ter existido e não ter tido nada de divino, mas o seu legado, a imagem do forte que estende a mão ao necessitado, ao invés de se servir dele, é a coisa mais bela, profunda e brilhante.

Lutarei pelo Cristo, lutarei pelos seus ideais, mesmo acreditando que deus não existe e que o universo seja regido pelo caos. Lutarei por ele porque se eu cair, se eu fracassar, se eu um dia nada tiver, é ele (ou alguém que nele se espelha) que me estenderá a mão.

Lutarei pelo Cristo porque o universo é um lugar escuro e sombrio, governado pelo caos, e os princípios cristãos são a diminuta e tênue luz lançada nele. Se um dia eu for forte, vou preferir que me sirvam de bom grado, que me sirvam de coração aberto, cada dia terei mais seguidores. O rei, líder ou chefe que não teme a todo momento uma insurreição vive melhor. E se eu for fraco, vou preferir não ser escravizado, vou preferir ter a chance de evoluir, e vou preferir uma liderança gentil, e a servirei bem. Nisso se resume a evolução conceitual das ideias políticas cristãs em detrimento das demais.Considerar a possibilidade de usar e se servir de um semelhante é, no fundo, autorizar que a violência e abuso sejam também direcionados a você. Ser mau é, no fundo, o inverso de ser sábio; e para alcançar o poder e a liderança é necessária a sabedoria.

Esse é o cerne da questão.

Vereor Nox


Lixo humano

Um lixo humano. Sujo, esquecido, escondido num canto de praça.
Eu estava indo para uma audiência no Tribunal, mas estava muito adiantado e tive que aguardar. Por conta disso, resolvi andar na praça.

Não por compaixão, porque esse sentimento fraco eu não tenho. Não por vontade de ajudar, porque eu não ajudo a ninguém. Mas por conta da curiosidade e da necessidade de passar o tempo com alguma distração, fiquei vendo o lixo chorar.

Aproximei-me e mesmo sem pedir permissão, dada a sua loucura, ele começou a me contar a sua história.

Foi ele um homem. Casado e com um bom emprego. Tivera ele duas filhas, lindas, nas suas confusas palavras. Frequentavam a escola, e tinham boa vida.
Contudo, suas meninas tiveram estranha doença, que lhes consumiu a juventude. Cruel porque demoraram a falecer. Cruel porque muitos médicos erraram seus diagnósticos. Cruel porque ele, impotente, só olhava o seu definhar, gastando seus modestos recursos sem lograr efeito algum. Contraiu dívidas para custear tratamentos, mas tudo inútil.

Perdeu seu emprego por conta da tristeza, e sua mulher por conta da miséria.

Sua mãe e seus irmãos nada fizeram, moravam longe. Foi morar naquela praça. Comia o que lhe davam e o que achava. Não tomava banho, só de vez em quando no abrigo da prefeitura, que de tempos em tempos fechava, e dormia ao lado de uma árvore.
Ele disse os nomes de suas filhas, Débora e Vanessa. Ele disse que jamais esqueceria esses nomes, apesar de ter esquecido o próprio, pela fome, doença e pelo passar do tempo.

Eu também tenho duas filhas. E nesse momento parei e o fitei por longo tempo. Aquele monte de lixo, fedendo a urina, que se esquecera do próprio nome, lembrava e disse que sempre se lembraria dos nomes das suas duas falecidas menininhas.

Eu vejo as minhas filhas uma vez por mês, e confundo os seus nomes com frequência… Na verdade sequer me importo se estão bem ou não… Mesmo antes de minha separação já não ligava muito para as duas.

Atravessei a rua, comprei um litro de cachaça e a dei para aquele monte de lixo. Talvez a cachaça lhe aliviasse a mente. Não por compaixão, não por vontade de ajudar, mas por reconhecer naquele monte de lixo um homem, um homem que perdeu tudo, talvez em alguma medida melhor do que eu, porque ele lembra os nomes das filhas mortas, e eu mal lembro dos nomes das minhas.

Nem por isso resolvi falar com minhas filhas. Nem por isso tive compaixão. Nem por isso amoleci. A um homem como eu não é dado amolecer, isso é para os fracos. Meu deus é o dinheiro, e é dele que extraio minha felicidade.

Não falei de Jesus, pois está provado que ele não existiu, que foi um amalgama de crenças antigas que justificou a permanência do império romano. Não falei de Deus por que um grande cientista já demonstrou com toda a matemática que ele não existe, que pelos princípios da física quântica a matéria surge do nada mesmo.

Apenas lhe comprei uma garrafa de cachaça, na esperança de que um dia, se/ou quando eu perder tudo que tenho, deixar de ser o profissional de sucesso que sou, deixar de ter o patrimônio que tenho, eu possa merecer ao menos uma dose de cachaça para aliviar a minha mente. Se é que terei alguma dor, pois só tem dor quem tem alma, e eu definitivamente não tenho.

Vereor Nox


O Desertor

Eram dois irmãos.
Ambos militares, uma vez que a elite da época (e da maioria das épocas) era composta por homens oficiais militares.
Descendiam de nobres, donos de várias terras, estudaram nas melhores escolas, tiveram tudo que o mundo podia oferecer. Se tornaram militares uma vez que a liderança política e social, naqueles tempos, era militar. Assim era o caminho natural. Um grande homem, naquele contexto e em todo o passado, tinha que ter sido, em alguma época de sua vida, um militar.

Um oficial médico, outro oficial engenheiro. Ambos altos, atléticos, e muito capacitados.

O sujeito de nossa história era o engenheiro. Antes fora um menino fechado e introvertido. Já homem, era muito versado também em política e ciências sociais, era muito mais capacitado e tinha muito mais consciência que seu irmão. Aliás, por conta dessa enorme capacidade de compreensão que tinha, tomou atitude tão drástica, tão visceral, que justifica esse singelo escrito.

Ele tinha algo em torno dos 32 anos e fora visitar seu irmão em um grande hospital e centro de pesquisa. A essa altura dos acontecimentos a guerra ainda não apresentava uma clara definição do que seria o seu futuro. Início dos anos 40 e os alemães estavam confiantes. Tudo parecia dar certo.

Ao chegar no centro de pesquisas foi recepcionado por seu irmão, que passou a mostrar todas as instalações. Ambos eram muito graduados e uma visita nas instalações era coisa de praxe entre oficiais. Com grande orgulho seu irmão lhe mostraria tudo, pois ali ele era também um importante gestor.

Mostrou os laboratórios, descreveu as principais pesquisas, equipamentos e os objetivos do que se buscava. A excelência na pesquisa humana, nos limites do corpo e mente. Suas pesquisas aprimorariam o sucesso do projeto ubersoldat. Seu irmão estava muito empolgado.

Uma parte das instalações era, contudo, bem sinistra: Quartos escuros aonde se amontoavam inúmeras crianças. Pareciam animais presos, ou doentes mentais. Todos amontoados, meninos e meninas, de avental. Sentados, a maioria no chão, quietos, de cabeça baixa. Alguns nos colos dos outros. Não havia brinquedos, nem os seus pais estavam lá. Janelas cerradas e cheiro de urina. Nada além de um quarto de cadeia cheio de crianças pequenas.

No final da visita, ainda dentro das instalações, nosso homem viu ainda um bando de crianças, umas de uns cinco anos de idade, ou menos, e duas de uns oito anos. Estavam descalços, com um avental muito simples de hospital, em fila e de cabeça baixa. Pareciam prisioneiros. Andavam empurradas por um soldado da SS que parecia um gigante perto delas.

Ao cruzar com nosso oficial, uma delas, um menino de uns quatro anos, olhos bem negros, magro, o olhou. A feição de um prisioneiro, o semblante entristecido, enrugado, magro, cabelos ralos, raspados. Logo foi empurrado pelo guarda e voltou a andar. Seus olhos eram olhos de uma criança, mas de uma criança sem esperança, sem brilho, atormentada e infeliz.

Naqueles segundos que seu olhos se encontraram, o nosso oficial foi tragado para dentro de si próprio.

Ao perguntar para seu irmão o que era aquilo, ouviu que se tratavam de cobaias. Seriam usadas para experimentos. Delineou as vantagens para todos pelo pequeno sacrifício de algumas vidas. O estado e o povo eram mais importantes do que algumas crianças judias ou ciganas. Assim era a natureza e o direito natural do mais forte. O destino da humanidade era mais importante.

Nosso oficial e seu irmão foram almoçar. Comeu pouco. Deixou seu irmão e voltou para casa. Amanhã terminaria sua folga e voltaria para seus próprios projetos.

Naquela noite, deitado, lembrou de um antigo professor, que gostava muito. Com ele tivera muitas horas de debate. Era judeu. Acreditava que ele estivesse na Áustria naqueles dias, afinal, com o aumento da beligerância contra os judeus ele havia partido. Sua cabeça era um turbilhão de pensamentos. Lembrou do que lera sobre o Grande Saladino, o grande cavaleiro mouro da época das cruzadas. Das histórias de Ricardo Coração de Leão e de outras histórias medievais que tanto gostava de quando era garoto. Lembrou dos códigos de honra dos cavaleiros, devaneios de menino.

Lembrou da sua própria infância, havia sido um garoto solitário e sonhador. Andava sempre sozinho, eventualmente acompanhado de empregados, mas nunca de amigos.

Um homem como o Grande Saladino, seu ídolo lendário, não faria jamais crianças prisioneiras, Saladino até mesmo chegou a mandar frutas e água a inimigos feridos, aquilo que ele tinha visto não tinha honra alguma.

Um guerreiro antes de tudo tinha que ter sua honra. Aonde estava esse princípio? O futuro da nação demandava de fato a escravidão e morte de todas as demais? Era essa a natureza das coisas?

Lembrou naquela noite de uma traição de um seu colega. Das coisas duras que dissera, que não o considerava um homem. Lembrou do pai e mãe já velhos, possuidores de uma grande fortuna e sem qualquer objetivo. Lembrou das suas paixões secretas, tabus secretos para aquele mundo.

Lembrou das histórias dos heróis nórdicos, em como eles protegiam os mais fracos contra os monstros mitológicos. Aquele soldado da SS lhe pareceu um monstro para aqueles meninos. Seu irmão também. E qual a real justificativa para o sacrifício de inocentes? Sua cabeça literalmente ferveu naquela noite.

Era um homem muito letrado e tinha muita consciência do que acontecia, e não carreava a idéia que estava a vigorar naqueles tempos. Amava seu país, mas não amava o regime vigente. País e regime eram coisas claramente diferentes, apesar da tentativa dos líderes, e em grande parte bem sucedida, de amalgamar os dois.

Naqueles tempos não era dado discutir política como hoje, e apesar do nosso personagem ser muito politizado, e ter um cargo importante nas forças armadas, não havia ninguém para externar seus pensamentos. Na verdade, ele sequer tinha amigos, era um homem muito solitário. Lera os maiores pensadores, desde Maquiavel a Santo Agostinho. Não fosse engenheiro, seria um livre pensador e provavelmente estaria preso por contestar o regime. Como já explanado, ele não poderia abrir seus pensamentos com ninguém, nem mesmo seu irmão. Apenas com seu antigo professor ousou, em parte, fazer isso.

Naquele momento era fato também que os militares alemães, assim como muitos da sociedade, tinham grande receio do poder absoluto que os membros da SS tinham. Sua patente não o iria proteger se ele ousasse discutir os rumos do país, com qualquer um que fosse.

Aquela imagem do garoto lhe marcou muito. Foi aí que delineou um plano. Não seria ele também, escravo de monstros imorais. Um escravo com regalias, com uniforme, mas escravo também. O menino sonhador e solitário que havia dentro dele tomou o controle de seu espírito.

Idealizou que, com igualdade de armas, talvez a guerra se encerrasse, talvez a vida pudesse retornar ao curso normal, e os monstros da SS voltariam para o buraco de onde vieram.

Tivera, noutro dia, curioso sonho com um mestre cavaleiro dos tempos medievais, aonde discutiram filosofia e religião. Sonho curioso e confuso…

Nosso personagem era um dos engenheiros chefes de um muito bem elaborado projeto da aviação militar. Ele mesmo tinha muita experiência em aviões, tinha até um para uso particular e recreio.

Naquela semana estava testando um protótipo de avião muito avançado, com ideias inovadoras que ele próprio concebeu, junto com o aval dos maiores engenheiros de então. Realmente, apesar dos 32 anos compreendia muito bem a aviônica. O protótipo contava também com um sistema de canhões muito poderoso, de alcance superior, além do sistema de mira eletrônica, que aumentava e muito sua precisão. Também um protótipo. Além das armas, a aeronave trazia consigo equipamentos de pressurização da cabine e de navegação eletrônica de última ponta. Ele era o responsável técnico e também representante do exército em uma pequena mas bem colocada companhia que cresceria muito caso o projeto frutificasse.

Nos teste finais se confirmou uma excelente aeronave de longo alcance, que poderia evoluir em conjunto com os projetos em andamento dos motores a jato, e seria capaz de qualquer ataque. Umas poucas dessas naves combateriam um número muito maior de inimigos. Esse avião navegaria com intrincado sistema de radar e detecção noturna. Seria a última palavra em tecnologia de guerra aérea. Eventualmente poderia atacar os aliados no seu âmago.

O protótipo testado, e único existente, estava equipado com motores turboélice, mas já contava com todos os sistemas de ultima geração, e por si só já era muito eficaz. Se entrasse em produção, seria um excelente interceptador ou bombardeiro médio, capaz de ir além dos demais aviões.

Num determinado dia dos testes, como era um dos engenheiros chefes, nosso personagem manipulou relatórios e ordens de convocação de outros aviadores. Pegou suas cópias de projetos, especificações de motores e armas, e deu um jeito de colocar tudo numa mochila de paraquedas.

Emitiu antes ordens para abastecer o aviação completamente, inclusive com tanques adicionais. Justificou que era para determinar quantas horas de funcionamento ininterrupto o avião suportaria. Não levantou suspeitas, uma vez que esse teste era de fato previsto, ele apenas o adiantou.

Tudo pronto e preparado, ele mesmo pilotaria o avião pelas primeiras horas. Solicitou mais uma vez a honra de pilotar o fruto do próprio trabalho. O combinado era que daria uma grande volta com o aparelho, e em duas horas retornaria, não desligaria a nave e assim outros pilotos se revezariam até o esgotamento de todo o combustível. Ele mesmo já havia realizado alguns testes preliminares. E assim foi deferido pelo comando aéreo, ele mesmo seria o primeiro aviador desse voo ininterrupto.

Entrou na aeronave. Ligou seus motores, suas têmporas estavam prestes a explodir. Manobrou na pista de forma suave e calma, levantou voo e subiu mais alto que qualquer caça poderia subir, e rumou a noroeste.

Ninguém percebeu a deserção até que, passadas duas horas, não havia sinal do aparelho. Superada a suspeita de um eventual acidente, o comando aéreo foi avisado, mas já era impossível para os caças da fronteira o abaterem. Era muito rápido e navegava em altitude muito alta.

Ele de fato pilotava com desenvoltura, pilotava bem até, era um de seus passatempos. Mas não era combatente. Já não tinha sequer idade para isso. Iniciava-se naquela época a carreira como piloto de caça muito antes. Nunca entrou em combate aéreo, ou qualquer outro tipo de combate. Mas lá em cima pensou no enorme risco que corria. A excitação era enorme. Pensava, com grande razão, que poucos homens na história tiveram papel tão importante num conflito como esse, que ele imaginava estar desempenhando naquele momento.

Após horas, ao chegar no espaço aéreo inglês, que já contava com um sistema de radar rudimentar, desceu a altitude possível para a escolta, e procurou algum aeródromo.

Não demorou muito e achou um. Caças ingleses surgiram. Baixou os trens de pouso, em sinal de rendição. Rezou para que não atirassem. O trem de pouso abaixado revelou bem sua intenção, e conseguiu pousar, escoltado pelos caças ingleses.

Aguardava ser bem recebido. Mas não o foi. Logo ao pousar, viaturas militares o aguardavam, e armas foram apontadas. Ficou de joelhos, braços erguidos e tentou explicar, com seu inglês perfeito, o que fizera e a máquina que trouxera.

Os oficiais ingleses o prenderam, ficaram muito surpresos e desconfiados, mas o trataram relativamente bem depois, apesar do enorme asco que tiveram. Um desertor curioso e estranho.

Ficou uns dois meses preso, quase que incomunicável, até que o comando inglês resolveu o fuzilar. Apesar da riqueza de detalhes que dera, dos projetos que trouxera, ainda era considerado um grande risco, e a figura de um desertor, em si considerada, era muito repugnante para a maioria dos homens daquele tempo. Para alguns de hoje também.

Preso, e sabendo que seria fuzilado, percebeu que havia se matado por causa de um olhar de uma criança. Percebeu que se matou por acreditar cegamente no princípio da igualdade de armas, coisa antiga e esquecida, coisa de garoto. Percebeu que se matou por que era solitário. Percebeu que se matou por conta das estórias da sua mãe, dos heróis antigos. Que se matou por ser diferente, por não ser como os homens deveriam ser. Percebeu que era de fato um grande bobalhão, o tolo que sempre fora alvo de chacotas quando criança. Sua grande inteligência e posição social nada eram. Normal ele sabia que nunca fora, suas paixões secretas já lhe sinalizavam isso. Pensou nas consequências para seu irmão, e em como aquilo acabaria de vez com a saúde e mesmo a vida dos seus pais, já bem velhos.

Percebeu que fora um grande erro e se arrependeu amargamente. E a ideia da morte o desesperou.

Jogou no lixo anos de aprendizado, de preparo. Toda sua cultura, seus princípios, sua vida, tudo jogado fora por causa de um olhar vazio de uma criança infeliz. Nada teria mudado o destino dela, e o que ele havia feito comprometeu gravemente o dele.

Percebeu a inevitabilidade do que aconteceria. Talvez a ilusória igualdade de armas não fomentasse o fim da guerra, talvez a prorrogasse. Vislumbrou que mortes aconteciam e que inevitavelmente continuariam a acontecer. Talvez os engenheiros ingleses não percebessem as sutilezas dos avanços da máquina. Percebeu que poderia ter continuado a sua vida, apesar da sua latente infelicidade.

No dia do seu fuzilamento, um oficial inglês lhe desdenhou pesadamente, disse que nada era mais infame do que um desertor. Um covarde desertor. Que um desertor não era homem. Um homem que trai seu país não era homem. Palavras duras já ouvidas em outras ocasiões.

Teve medo e arrependimento. Muito medo e um enorme arrependimento. Acreditou enormemente que no fundo ele era mesmo um idiota covarde e traidor.

Ao ser amarrado no poste, com um muro de concreto atrás de si, e com um grosso capuz de pano, seu coração disparou. Sua respiração era frenética. Naqueles momentos, suas têmporas pareciam que iam explodir. A excitação da espera do tiro fatal em seu peito era insuportável. Sua respiração estava acelerada,e o suor frio lhe escorria pela face, e as vertigens quase o fizeram desmaiar.

Nesse momento viu um menino pequeno vindo em sua direção, de mãos dadas a um sujeito que parecia um clérigo. Um clérigo sem definição. Parecia um monge de alguma época do passado. Mesmo encapuzado estava vendo, estava vendo com os olhos do espírito. Já estava, mesmo sem saber, quase desligado do seu corpo.

Sua respiração estava rápida, sua cabeça latejando em violenta pressão. Chorou. Ato entendido como um ato de covardia pelos seus executores, mas não era covardia. O menino que ele tinha visto no hospital, viera lhe buscar…

Seu pensamento estava correto. Poucos homens na história esqueceram de si por causa de um olhar de uma criança. Lembrados, nenhum.

Seu corpo ficou ali durante um bom tempo, até ser levado para uma vala simples num cemitério próximo, enquanto os engenheiros aliados já estavam a analisar seus projetos.

Sua atitude esquecida contribuiu para a derrota alemã, que demorou muito para ter um avião de alta performance. Seu irmão perdeu o comando do hospital e saiu da frente das pesquisas, afinal ser irmão de um traidor é uma grande mácula no currículo.

Seu nome foi riscado de qualquer registro, e nem nessa oportunidade de escrita foi possível saber seu nome.


Bons tempos…

Hoje, vivemos bons tempos…

Em outras épocas, tive a imensa dor de ver meus pequenos filhos passarem fome. Nessa mesma ocasião tive a tristeza de vê-los morrer e nenhuma lembrança guardar.

Em outros tempos tive que os ver indo à guerra, de saber que iriam perecer em campo aberto, onde nem o inferno, com todo seu fogo, consegue abarcar tamanha barbárie.

Como escrava, não foi possível acalentá-los…

Perder os filhos é a maior dor que uma mãe pode sentir… Sei o que é ser escrava, ver os filhos tomados à força, sei o que é os ver indo à guerra, sei como é perder o que é mais caro em todas as formas.

Como rainha, fui forçada a os deixar cedo. O poder e a fortuna terrena quase sempre não permitem a felicidade. Alguns se voltaram contra mim, com outros não pude sequer conviver.

Vidas de felicidade relativa eu tive, mas não como rainha, muito menos como humilde serva. Os extremos proporcionam muita tristeza, apesar de também trazerem profunda sabedoria.

Mas hoje são bons tempos. Hoje os reencontrei. Meus filhos amados, que outrora combateram, foram feridos, foram mortos, sofreram como eu… Hoje os vejo relativamente felizes, sem preocupações, em terras abençoadas, vivendo suas vidas.

Hoje me apresento como simples serva, sem nome, sem enfeites… Dedico-me a ensinar a humildade e a passar a força necessária para enfrentar os percalços da vida.

O Nosso Senhor andou com os mais pobres da terra… Dividiu sua luz com todos e morreu como um reles malfeitor… Não faz sentido se adornar para segui-lo, muito menos acreditar que se faz necessário alguém pretensamente instruído para traduzir sua magnifica palavra.

Se você puder ouvir os conselhos de uma simples escrava velha, sem se importar com a origem, correção gramatical ou qualquer outro adorno, livre de preconceitos, então talvez possa entender os mais profundos segredos do além.

A mulher sem nome.


Um “J” no passaporte

Bom dia.

Posso contar minha pequena história? Fui uma jovem judia na época da ascensão do nazismo alemão. Minha família tinha uma pequena fábrica de artigos de couro. Vivíamos despreocupados até então.

Com o advento da política de beligerância contra os judeus, e após nos desfazermos de tudo, fomos todos para a Suíça, e lá depositamos todas as nossas economias em um banco. Na Suíça um oficial de fronteiras pegou nossos passaportes. Assinalou algumas coisas e nos devolveu. Podemos ir então para a Áustria e depois fomos para a França, de lá, fomos à América, graças a um conhecido que nos bancou a viagem. Perdemos tudo o que tínhamos, pois nunca mais foi possível voltar para a Suíça, e anos depois a mesma não reconheceu os depósitos efetuados, mas mantivemos nossas vidas, o que é mais importante.

Depois de muitos anos, porém, percebi que aquele oficial de fronteiras havia ajudado muito. Havia-nos salvo de um sofrimento terrível e inimaginável. Ele descumprira ordens de carimbar um “J” laranja em nossos passaportes. Isso nos salvou, porque com esse “J” no passaporte seríamos detectados como judeus no retorno à Alemanha e nosso destino seria um campo de concentração onde horrores e mais horrores eram reservados a nós.

Fiquei sabendo disso muito tempo depois da guerra, por conta da minha mãe, amigos e ao ouvir depoimentos e artigos de história. Isso depois que eu cresci. Depois de ter meus filhos. Depois que soube disso, sempre, sempre e sempre fiz uma oração por aquele oficial, que intencionalmente ou não nos havia salvado. Eu até acreditava que tivemos sorte, apenas. Depois da minha morte, que foi muito tranquila junto aos meus filhos e netinhos, cercada de entes queridos, ao perguntar por esse episódio da minha vida, fui surpreendida pelo fato daquele homem ter salvado centenas de pessoas antes de ser preso. Ele assim agia intencionalmente, não carimbando nada no passaporte de ninguém. Fiquei assombrada pela sua coragem.

Pois bem. Soube que ele foi descoberto, e foi preso. Foi preso, processado e torturado, e depois foi executado num campo de contenção na Alemanha, depois de padecer sofrimentos inimagináveis. Sua história não é conhecida assim como não é de conhecimento geral que outros tantos heróis anônimos que como ele assim agiram e assim morreram, e que agiram contra as autoridades suíças. Muitos deles sabiam da necessidade, e tinham ordens para tanto, de se carimbar o “J” laranja e de que a Alemanha considerava os judeus inimigos do estado.

Gostaria de dizer que depois que aqui cheguei e descobri toda a verdade o procurei. E o achei. Ele não percebe a mim, nem a outros que desejamos ajudar. Ainda está preso nos acontecimentos do passado e ainda sofre das dores do fuzilamento. Sua mente recria a cena do campo cinza, da noite sem estrelas e fria onde soldados o levam nu e machucado para uma parede onde outros corpos jaziam, nus também. O colocaram de joelhos, o humilharam, bateram e atiraram covardemente na sua cabeça. Ele sofre essa repetição mental todos esses anos e não conseguimos ainda fazê-lo enxergar que tudo já passou.

Quero dizer para você que ficarei do lado dele até ele acordar, ainda que dure uma eternidade. Eu vivi e ele não, eu tive filhos e netos, e ele não. Dormi noites tranquilas no recesso do meu lar e ele passou todos esses anos no inferno, nu, de joelhos e sangrando. Pedi para Deus, e assim foi aceito, que ele renasça um dia como meu filho, em terras distantes, num país que recebe a todos de braços abertos, para que eu possa dar a ele todo meu amor e minha gratidão. Que eu possa, com meu amor, refazê-lo como homem, como um dia ele foi e salvou a vários.

Obrigada,

Helga.

trecho do livro Fantasmas – as suas horas finais, de Alexandre Carnevali da Silva


Criança nas trevas

Francisco nasceu em uma comunidade muito simples, em uma pequena cidade do interior. Seus pais viviam na zona rural e eram muito pobres, tinham vários filhos.
Com a pobreza e a fome, seu pai não suportou o peso e enlouqueceu, saiu vagando por uma estrada e não foi mais visto. Seu patrão exigia muito trabalho e havia triste esquema de venda de produtos na fazenda, aonde os empregados só podiam comprar no armazém de lá, que vendia tudo muito caro e acabava por comprometer o salário, e gerar enorme dívida. Praticamente uma escravidão.
Sua mãe e seus inúmeros irmãos não tinham como se sustentar. Resolveram então ir todos a cidade, tentar vida nova.
Ele era o último dos irmãos. Sua mãe o deixou, com 03 anos de idade num orfanato, mantido pela Igreja Católica, em uma cidade que passaram.
Francisco era muito belo, branco, rosto delicado, de cabelos aloirados.
O padre que cuidava do local logo se afeiçoou ao garoto.
O problema é que, com o passar do tempo, o padre o cativava e o fazia crer que ele era seu protetor, e dormia junto com o garoto. Fazia crer ao garoto que tudo aquilo era normal, que a dor era normal e que ele o amava. Pior ainda, fazia o garoto crer que lhe devia gratidão pelo seu acolhimento e sustento.
O garoto não convivia com os demais garotos, o padre não o deixava conviver com os demais porque assim ele compreenderia o que estava ocorrendo.
Com seu crescimento, o padre não mais se interessava pelo garoto, tendo conhecido outro, mais novo. Antes dos dez anos nosso triste personagem começou a conviver com os outros meninos.
Os demais garotos faziam a mesma coisa que o padre lhe fazia, com uma agravante: lhe insultavam e o humilhavam, pois ele era a “mulher do padre”. Ocorreram tardes onde verdadeira fila de meninos se revezavam para o seviciar.

Quem não se lembra das antigas brincadeiras infantis de corrida, com o chavão “quem chegar por ultimo é a mulher do padre”? Eis aí a sinistra origem da brincadeira, pois era coisa comum antigamente em orfanatos, determinados padres, nada comprometidos com o que era correto, escolherem os seus garotos, tais quais prisioneiros antigos em uma prisão, em relação aos novos que chegam. Obviamente havia padres vocacionados e de bem, mas havia também os criminosos que assim agiam, se escondendo nas vestes de um sacerdote. Isso é fato. Infelizmente fato até hoje, conforme retratado na imprensa. Nenhuma instituição está livre dessa contaminação.

Francisco se matou com aproximadamente doze anos de idade, com uma navalha do padre que agora lhe era muito hostil. Ele pediu a navalha emprestada para aparar alguns pelos que se iniciavam em suas pernas. Era um garoto mirrado, pequeno.
Cortou sua própria garganta. Precisou engolir o choro e a repulsa, e passar a navalha afiada na própria garganta. Não suportava mais servir de latrina humana para os garotos do orfanato, que lhe eram horrivelmente hostis. Francisco tinha muita mágoa, não sabia de nada, quem era sua mãe, ou da razão de estar lá. Só sabia que sofria horrivelmente.

Não comia muitas vezes, pois os garotos lhe tomavam o prato, e os administradores do orfanato se riam. Alguns o procuravam para lhe dar o que comer, e depois o usavam de latrina humana, que era exatamente o que ele era ali. Os servidores do orfanato, a despeito de saberem o que ocorria, principalmente ao ver com frequencia as roupas intimas sujas, se omitiam vergonhosamente.

Quando um adulto desacredita no mundo, ainda tem suas lembranças. Quando uma criança desacredita no mundo, ela não tem absolutamente nada. Assim era Francisco. Não tinha absolutamente nada. Seu corpo foi achado num galpão do orfanato, e enterrado sem qualquer cerimônia. Na verdade enterraram seu corpo aonde se enterravam os cães, num terreno perto dali, em parte para esconder o fato, em parte por não o respeitarem.

No astral foi acolhido por sinistra família. E agora é um dos pouco conhecidos, mas muito temidos exus mirins. Na verdade não há um nome terreno para a sinistra família que o acolheu. E poucos a sentem, mas é muito poderosa e dita alguns caminhos do mundo.

Hoje não há como convencê-lo do amor do Cristo. Como convencê-lo depois que foi confiado aos cuidados de monstros, travestidos de representantes da Igreja? Por ser uma boca a mais para se sustentar em uma família que assim não o podia fazer, e ao ser assim depositado no seio de um orfanato, e ter sido vítima de tão ignóbeis atos? Como?

Hoje é sinistra criança demônio, que poucos podem lidar.


A Menina Polonesa

A única lembrança que não sai da minha cabeça é aquela manhã cinza de uma cidade que não lembro o nome, na Polônia ocupada, onde reunimos um grupo de civis para transportá-los para um campo de contenção.

Estava bem frio naquele dia e o céu estava cinza.

Chegamos em diversos caminhões, nossas tropas rapidamente tomaram toda a cidade e começamos a retirada dos civis. Apesar de frio o lugar era bonito, com umas montanhas cinzas ao fundo, e a cidade era tão alemã quantos as cidades alemãs que eu conhecia.
O grupo que minha tropa reuniu era de pessoas comuns, mas muito articuladas, que esboçaram uma pronta reação. Estavam muito indignados. Aparentavam ser gente normal, professores, comerciantes, enfim.

Nosso comandante oficial, após ter recebido algumas ofensas, que sequer lhe ofenderam de fato, mandou separar os homens das mulheres.

Os homens foram executados a tiros de rifle, ali mesmo. Jovens, velhos pouco importava. Após a execução de todos eles, as mulheres foram convocadas para empilhar os mortos. Isso lhes causou enorme repulsa, e se revoltaram muito.

Nosso comandante ordenou então a execução de todos.
Ordenamos as mulheres em filas, e as executávamos a tiros como aos homens.

Eles, mesmos baleados, não acreditavam no que estava acontecendo.
Uma delas estava com uma menina de uns quatro anos no colo.

Um soldado a retirou dos braços da mãe e a mesma foi morta naquele instante.
A menina ficou totalmente perdida, olhava o cadáver da mãe e nada entendia.
Olhou para mim com um olhar vazio que jamais esquecerei. Era um misto de desespero e descrença. Pobre menina! Seu olhar havia perdido o brilho natural. Como o olhar de uma criança poderia perder seu brilho? Seu olhar foi horrível e dolorido. Senti um misto de tristeza, incapacidade e angústia. Uma menina pequena, andando em círculos, pedindo socorro com os olhos.
Como seu olhar era dolorido! Seus olhos viram o impensável. Ela vira sua mãe morta, na sua frente. Olhou pra mim. Ficava olhando para mim.
Seu olhar jamais em tempo algum me será esquecido. Lembro que ela estava
com uma sandália. Que frio aquela menina deveria estar sentindo!

O que diabos estávamos fazendo? Eu a peguei nos meus braços e solicitei ao comandante que fosse poupada. Ao ouvir isso tiraram ela de mim, tiraram meu rifle, me esbofetearam e me colocaram de joelhos com uma pancada na minha perna e a mataram, na minha frente, me fazendo ver a cena. Fui detido no mesmo momento. Havia cometido ilícito militar. Ainda era soldado, mas fui imediatamente transferido para o front oriental, para combater os russos. Nem deu tempo de escrever para minha mãe, pedir para ela orar por mim.

No front oriental tudo era muito difícil, não era a toa que nossos soldados a chamavam de “terra da carne congelada”. Impressionante como os russos defendiam suas terras. Avançávamos por quilômetros vazios e tudo congelava. A resistência era fortíssima quando a encontrávamos, mas o que enfrentávamos de pior era o frio e fome. Aqueles porcos dos nossos comandantes tinham comida, vinho e aquecimento, nós não, nós éramos quase que como bichos para eles. Dormíamos todos juntos, sem tirar o uniforme.
Tirar a bota era o mesmo que perder o pé por conta do frio.

Recordo-me muito de quando fiquei na Polônia. Nosso exército havia tomado todo o país, fazendo fronteira com a parte invadida pela Rússia.
Houve uma ocasião em que um companheiro de quartel, enquanto fazia a ronda, foi abordado por umas crianças polonesas. Elas pediam pão. Esse meu companheiro entrou no quartel e pegou um saco, e deu esse saco para as crianças. Nele havia fezes. Esse homem havia dado fezes a crianças que pediam pão. Lembro de as ter visto sair, tristes e desorientadas, e do meu colega de armas rir. Por Deus, isso aconteceu mesmo, mas nem eu mesmo acredito no que vi.
Retornei para Berlim, pois todo esforço acabou se revertendo para a defesa da cidade. No retorno descobri que minha cidade havia sido devastada, e que muito provavelmente minha mãe havia morrido. Chorei escondido de todos. Era a única pessoa que eu tinha no mundo, eu a amava muito, ela sempre foi muito amiga minha. No mundo éramos eu e ela apenas, meu pai havia morrido eu ainda era pequeno, e eu não tive irmãos. Como tive saudade da minha infância, éramos muito pobres, mas tínhamos uma vida tranqüila. Eu ia a escola e a igreja com minha mãe. Sei que ela devia ter sofrido muito quando fui convocado.

Nossos comandantes nos insuflavam contra os ingleses e americanos, os chamando covardes. Acaso um piloto americano fosse visto, por conta de ejeção nos combates aéreos, era para ser imediatamente conduzido a interrogatório. Participei do fuzilamento de alguns.

O retorno a Berlim foi terrível, ao passar pela terra víamos a destruição, tudo acabado. Cidades inteiras destruídas e pessoas perdidas aqui e ali. Não passei pela minha cidade, queria ver aonde minha mãe poderia estar enterrada, mas não pude.

Fomos a Berlim esperar o inevitável.
Lembro-me do dia em que o setor da cidade onde estava fora invadido. A cidade sofrera pesado bombardeiro, um enxame de aeronaves sobrevoava e nossa aviação de guerra simplesmente não aparecia, aliás, há muito não aparecia. Estávamos sem comunicação com o comando, se é que ele ainda existia naquele momento, sem querosene para os carros, com fome e quase sem munição também. Estávamos a esperar o exército vermelho. Os russos nos tinham muito ódio. O dia estava claro, e a cidade em ruínas.

Na larga avenida onde fora montada uma barricada estávamos eu e uma tropa de soldados, que mais pareciam indigentes. Estávamos com tanto medo que nem respirávamos direito. Nossas ações estavam como que refreadas. Doíam todos os músculos das pernas e braços. Enfrentar o exército vermelho naquelas condições era o mesmo que enfrentar a morte. O tiroteio não foi forte porque recuamos. Não adiantava se entregar aos russos, eles simplesmente nos matariam.
Na minha fuga para o centro da cidade vi um grupo de meninos, perto de um prédio desmoronado. Meninos pequenos, com medo, totalmente desamparados, alguns quase nus, descalços, com a mesma ausência de brilho no olhar daquela menina.

Parei. Larguei meu rifle, tirei meu capacete, andei de mãos para cima em direção aos russos. Queria fazê-los parar. Tentar falar com
eles. Eu sabia algumas palavras em russo. Dois deles, os que vinham à frente da turba que estava ao longe, ajoelharam e armaram seus rifles, apontara para mim e me alvejaram. Não senti nada. As balas me atravessaram. Pus as mãos no meu ventre perfurado, senti o calor do meu sangue fluindo. Ajoelhei.

Não tive coragem de olhar para onde estavam os meninos, mas sabia que eles estavam me vendo. Ajoelhado, fiquei olhando aquela multidão que passava por mim, até minha visão sumir e eu adormecer.

Aqui eu ainda procuro aquela menina para pedir perdão pelo que fizemos, mas não a encontro. Acho que ela não está nesse vale. Procuro também aqueles meninos, para saber se escaparam. Queria poder sair desse lugar, mas aqui é confuso. Fui trazido para esse lugar e estou preso nele.
Parece um vale de noite eterna. Meus carcereiros usam uma suástica diferente, mas sei que são nazistas também. Malditos  desgraçados. Sequer explicam o porquê disso. Também sou alemão, mas não há sequer uma explicação.

Fui um bom homem, mas não sei se mereço sair daqui, acho que por tudo que vi e fiz, esse seja meu lugar. Só queria de alguma forma poder ver minha mãe e poder saber se aquela menina está bem. Ambas não mereceriam estar nesse maldito lugar.

 

 

 

Fragmento do livro Fantasmas – as suas horas finais


A Bruxa

Ela se levantou do catre imundo. Era duro, mas já estava acostumada. Com dificuldade se levantou e olhou nos olhos dos seus executores. Aceitou a injeção letal.

Enquanto esperava o efeito, pensava em tudo que passou na vida. Nada fora mais triste que saber da morte do seu noivo, presumida na verdade, mas tida por certa tamanha a violência do combate, e sofrer logo em seguida o fim da sua gestação… Não teria o filho do seu amado.

Lembrou dos momentos em que empenhou seu rifle e lutou ao lado das Bruxas. Levaria essa alcunha para o mundo dos mortos. Lembrou de cada combate, cada tiro disparado, cada soldado alemão caído. Lembrou das eternas noites em campanha, da fome, do frio, da longa e solitária espreita. Lembrou dos homens que via pela luneta do seu rifle, antes de atirar. Alguns tinham o semblante parecido com o do seu noivo. Lembrou da prisão, da violência sofrida, dos espancamentos e de como ganhou a negra cicatriz no rosto.

Andou com dificuldade até a sala aonde tudo acabaria, e aguardou o momento final. O camarada enfermeiro tentou lhe falar algo reconfortante, disse vagamente que daria o nome dela ao bebê que estava esperando, acaso fosse menina.

Irina disse que teve uma vida triste, que não lhe desse esse nome, talvez poupasse a criança de uma vida sofrida.

Pensou na grande União Soviética, vencedora da guerra, pensou em si, que apesar de tudo havia se tornado um peso, e que agora lhe cumpria o último dever como miliciana… o dever de morrer.

Deitou-se e dormiu.

Não havia revolta no seu coração. Apenas uma enorme tristeza e um grande vazio sem esperança.

A União Soviética, pelo que entendi ao vislumbrar seus pensamentos, estava eliminando os doentes daquele asilo público, talvez por falta de recursos, e como Irina não tinha ninguém, e estava muito doente, entenderam por lhe dar um veneno, que lhe seria indolor. Talvez um último presente dentro das possibilidades de um estado ateu, recém saído da grande guerra, em honra à miliciana que foi.

Os administradores sabiam que ela havia lutado ao lado do exército vermelho. Sabiam que havia sido uma atiradora destemida. Mas não sabiam a origem da enorme cicatriz que tinha no rosto, nem exatamente do porquê dela se referir a si própria como uma bruxa. Ela quase não falava.

Eles não sabiam que ela havia sido uma jovem honesta e trabalhadora, fiel moradora de uma das inúmeras fazendas comunitárias do interior. Que se casaria com um formoso rapaz.

Quando da eclosão da invasão, rápida e devastadora, e assim como todos os homens em condições de lutar, seu futuro esposo foi convocado pelo exército vermelho. Antes de sair, contudo, consumaram seu afeto e união. Desse ato acreditou fortemente que havia engravidado.

Ela também acabou, ao lado dos seus, abandonando a fazenda. Se dirigiram como retirantes para o interior. Com muita dificuldade no campo de refugiados, aonde permaneceram ela, a família e um sem número de pessoas, ficou sabendo da provável morte de seu futuro marido, cuja divisão havia combatido e sido dizimada próximo à sua cidade natal. Nesse mesmo dia, após sofrer fortes dores e muito sangramento, perdera a criança.

Com o passar dos dias e meses, quase sem ter o quê comer, acreditou que talvez tivesse sido melhor assim. Viu a fome e a doença arrebatar-lhe o pai e a mãe. Não havia mais homens jovens, nem mesmo velhos, nem comida ou recursos, e o diretório do partido convocava agora as mulheres para o combate.

Se apresentou, e se reuniu com o grupo das velhas bruxas.

Vi seu vulto caminhando à distância, e sentando num lugar ermo. Não era hostil, mas também não era amigável. Era um vulto que perambulava apenas, contemplando o mundo dos homens. Diria até que se assustou quando lhe dirigi meu pensamento, talvez se julgasse invisível à sensibilidade humana. Por pensamento, uma vez que não falo russo nem tão pouco ela minhas erradas línguas, me mostrou como havia sido sua vida. Me confidenciou que até gostava de estar morta, pois em vida nada de bom lhe havia acontecido, e como morta, ao menos, tinha parado de sofrer. Temia estar louca, e que tudo fosse um horrível e interminável pesadelo, do qual não acordava jamais.

Me contou que procurou alguns dos entes queridos, mas a eterna noite e os caminhos confusos do mundo não lhe permitiram alcançar seu intento. Apesar de saber da sua condição, não acreditava em nada. Como acreditar em algo bom, além do gênero humano, após tudo que viveu? Acreditava apenas que a bondade e a paz são frágeis, simples e não são páreo à violência do mundo, ou à natureza humana. Bondade e paz não são páreo ao caos que é a vida. Acreditava apenas no caos.

Era a alma de uma bruxa, que eu em vão eu quis abraçar.

Algumas almas de um passado muito distante a acolheram. Do nada surgiram, algum tempo depois. Pareciam clérigos ou sacerdotes de alguma fantasia medieval. Não sei bem o que falaram, nem para onde a levaram, nem do porquê do aparecimento.

Rogo ao Senhor para que alguém em algum lugar a possa resgatar desse terrível pesadelo. A única visita que recebeu em todos esses anos estando no inferno foi a minha, alguém tão distante no tempo e no espaço que se afigura, a ela, como um fantasma também.

Deus, receba Irina em seus braços, permita que o tempo possa voltar e seguir seu curso sem a maldita guerra, em alguma realidade alternativa, e ela possa reviver sua vida com seu esposo e seu filho.

Vereor Nox


Meu Bisavô

Meu bisavô. Até onde sei, era homem triste e calado, de coração amargurado e fechado.

Homem de família, honrado e fiel, porém escurecido pela eternidade.

 No inicio do século vinte a vida era difícil no interior do Paraná, os imigrantes italianos viviam em roças, em casas com pouca estrutura, sem água encanada ou qualquer outra benesse comum aos dias de hoje.

 Meu bisavô vivia com a mãe e com a irmã, mais ou menos dez anos mais nova que ele. Ele um rapaz de uns dezesseis anos, trabalhador e honesto, sua mãe já não podia trabalhar, pai falecido e irmã pequena, de uns cinco anos.

 Um dia, ao voltar da roça, viu a casa bagunçada, os cães recolhidos, a mãe amarrada na cama e a irmã sangrando, deitada na cama, encolhidinha. Havia, aos seus cinco anos de idade, sido rudemente estuprada por um vizinho.

 Soube da autoria pela irmã, que entre os gemidos de dor lacerante lhe disse o nome de quem lhe fizera tamanha hediondade. A mãe não falava, tamanha a dor e trauma.

 Armou sua garrucha. Para quem não sabe, uma garrucha era uma arma rudimentar, de dois tiros, armada com pólvora preta e projétil de chumbo, ou qualquer coisa que servisse como bala. Pegou sua melhor faca e um bom pedaço de carne salgada, e foi para a casa desse vizinho. O ódio era tanto que uma grande frieza e capacidade de raciocínio o acometeu. Sabia exatamente o que fazer.

 Ao chegar na roça do vizinho, após longa caminhada, jogou a carne para os dois cães da casa, que já o tinham visto algumas vezes. O referido algoz estava, junto com um irmão e a mãe, sentados comendo. Tanta naturalidade após tanta barbárie. Homens cruéis e boçais são assim… Fazem o que fazem e não se importam. Não há germe de arrependimento. Essa é a diferença de uma alma boa para a má: a banalidade do que se comete de maldade.

 Ao chegar, de forma mansa, foi avisando que queria pão, confundindo os algozes de sua irmã. Ao chegar perto, sacou a garrucha e matou o primeiro. O segundo, mais gordo e lento, ele matou na faca, que sacou logo em seguida ao largar a garrucha. A mãe dos dois ficou atônita. Ele nada falou e ficou olhando para a mulher, que não chorou nem se desesperou, talvez soubesse do ato sórdido dos filhos, ou de outros, ou estivesse mesmo paralisada. Olhou nos seus olhos como um predador olha para a presa, havia vazio no seu olhar… só o vazio.

 Meu Bisavô não enfrentou os cães, eles o conheciam e a carne garantiu uma entrada e saída pacífica, fato até curioso. Pegou a garrucha, a faca, limpou o sangue e foi pra casa.

 Ao voltar viu com precisão o péssimo estado da irmã, sangrando e gemendo de dor na sua cama de palha. A menina era muito pequena, até mesmo para a idade, e era grave o estado. A mãe ainda prostada, sem saber o quê fazer. Foi à cidade procurar médico, seria uma longa caminhada, e voltou sem lograr achar nenhum. Achou uma parteira, que voltou com ele. Boa alma que se propôs a ajudar.

 Nada pôde ser feito, e a menina morreu por conta da grande hemorragia. Seu rosto espelhava o terror da sua morte prematura e cruel. Um grupo de vizinhos se prontificou a arrumar enterro. Foi traumático também para todos que souberam do fato.

 Meu bisavô, em parte por não ter nada mais naquela região, em parte por temer a policia ou quem lhe fizesse as vezes, foi embora daquela região, e nunca mais voltou. Sua mãe ficou com uma vizinha, que também era aparentada.

 Constituiu família em outro lugar. Mas a alma estava escurecida para sempre. Viveu, perdeu uma perna em um acidente, nunca festejou nada na vida… Morreu cercado pela nova família, mas não pôde conviver com sua irmãzinha.

 Dalí e por todo o sempre, ao ver uma doce criança brincando, seu coração se enegrecerá, lembrará da dor e da fragilidade que é a felicidade e a paz. Sempre terá em sua alma a prontidão contra a estupidez e boçalidade humana. Sua alma será sempre sombria, mas nunca má.

 Meu nobre bisavô, nunca compreendido na sua solidão, não compreendido pela família, posto seu segredo nunca ter sido revelado, meu bisavô que não conheci… Perdoe-me por tornar público aquilo o que o senhor escondeu por toda a vida. Mas se eu soube da sua triste história, em confuso e aterrorizante sonho, talvez seja o senhor me permitindo seu uso. Talvez ela sirva de reflexão para alguém.

Vereor Nox.